24 novembro 2014

Sapatilha de ponta

Por
Foto por: KCBalletMedia

Não faça nada por conta própria!

O sonho de mui­tas meni­nas ao entrar no bal­let é usar sapa­ti­lhas de ponta. Já fala­mos algu­mas vezes aqui sobre o tempo e os pré-requisitos para o uso das pon­tas. Algumas pes­soas aca­bam caindo na bes­teira de come­çar a usar as sapa­ti­lhas sem ori­en­ta­ção de um pro­fis­si­o­nal. Totalmente errado.

Spitalfields Life / Sarah Winman

 

Saiba por­que você NÃO DEVE FAZER ISSO:

Pode se machucar!

Tentar sozi­nho pode resul­tar em dedos e pés machu­ca­dos, pés­simo domí­nio das téc­ni­cas e desen­can­ta­mento com o pro­cesso de apren­di­za­gem das pontas.

O bal­let tem regras. É uma téc­nica a ser seguida. Se engana quem acha que a sapa­ti­lha faz a bai­la­rina! O que faz a bai­laina é seu conhe­ci­mento pelo bal­let. Conhecimento prá­tico! Não adi­anta só ler. Por mais que a gente escreva sobre bal­let, são dicas ape­nas. Não existe um “passo a passo, bal­let aprenda você mesmo em tan­tos dias”.

Cuidado se você for muito nova, pois seus ossos não estão total­mente desen­vol­vi­dos, além de outros aspec­tos. E se você come­çou numa idade mais avan­çada, cui­dado tam­bém pois os ossos já estão intei­ra­mente (ou ao menos quase intei­ra­mente) desen­vol­vi­dos e mui­tas vezes fal­tará força para subir e dan­çar nas pontas.

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Espere o seu pro­fes­sor dizer se está apta ou não a uti­li­zar pon­tas. O mal uso das sapa­ti­lhas pode cau­sar danos per­ma­nen­tes em sua saúde.

E mesmo que você já faça aulas, muito cui­dado ao pra­ti­car em casa! Para não escor­re­gar, para não fazer os movi­men­tos erra­dos, para não ten­tar for­çar posi­ções e fazer pas­sos que ainda não con­se­gue ou não está preparada.

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No momento certo tudo ficará bem, pode ter cer­teza! Vamos lá, bailarinas!

Ah, e se qui­ser dar uma olhada no que temos sobre sapa­ti­lha na loja vir­tual Ana Botafogo é só cor­rer aqui.

Beijos!

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
17 novembro 2014

Série Grandes Nomes – DENNIS GRAY

Por

A falta que ele nos faz!

Em um dis­tante 20 de junho, na não menos dis­tante Araçatuba, cidade do inte­rior de São Paulo, nas­cia o menino Nelson, filho de Herculano Theodoro Rodrigues, fazen­deiro, enge­nheiro, dono de car­tó­rio e polí­tico, e de Irma Ridolphi Rodrigues, pren­dada dona de casa. Como todas as cri­an­ças que mora­vam dis­tan­tes dos gran­des cen­tros urba­nos, Nelson cres­ceu cer­cado de muito verde, subindo em árvo­res, “apron­tando todas” na escola, fre­quen­tando aulas de cate­cismo e de nata­ção que sim­ples­mente ado­rava e que aca­bou lhe dando a meda­lha de cam­peão de salto de tram­po­lim no melhor clube local.

Por ser o único filho homem da famí­lia, teve pro­fis­são desig­nada pelo pai mesmo antes de nas­cer: seria enge­nheiro! (Pois sim! Só se fosse enge­nheiro de sonhos, como de fato acon­te­ceu.) Bastou o Circo Dorami che­gar a Araçatuba para dei­xar Nelson, 13 anos na época, abso­lu­ta­mente fas­ci­nado. E fas­ci­nado pela bai­la­rina com seus pas­sos deli­ca­dos e ges­tos que pare­ciam sair de uma cai­xi­nha de música.

Até aquele momento nunca tinha ouvido falar em bal­let, mas a ami­zade com o palhaço do Dorami deu a ele a opor­tu­ni­dade de fazer parte daquele mundo encan­tado. Foi apren­diz de tra­pe­zista, dava cam­ba­lho­tas na cama elás­tica, enfim, fazia um pouco de tudo.

Em dezem­bro de 1943, par­tiu para São Paulo e nunca mais vol­tou. A garan­tia da ali­men­ta­ção e do trans­porte vinha de um modesto emprego como con­tí­nuo do jor­nal Diários Associados. As sua­das eco­no­mias ele guar­dava para assis­tir tea­tro, ópera, ballet.

No Teatro Municipal de São Paulo conhe­ceu Joaquim Alvez Lima, que lhe falou sobre Maria Olenewa e o incen­ti­vou a estu­dar dança com a grande pro­fes­sora russa, fun­da­dora da Escola e do Corpo de Baile do Municipal do Rio de Janeiro. Por um “acaso” do des­tino, naquele momento ela tra­ba­lhava na capi­tal pau­lista. E em de março de 1944, depois da pri­meira aula com Olenewa, “alguém” puxou os cor­dões e fez a magia acon­te­cer. A par­tir desse momento, Nelson desa­pa­re­ce­ria para se trans­for­mar defi­ni­ti­va­mente em Dennis Gray, nome, aliás, suge­rido pela pró­pria professora.

Flexível ao extremo, ágil demais e dono de uma força de von­tade imba­tí­vel, o novo aluno não pas­sou des­per­ce­bido aos olhos da mes­tra. Depois de muito suor e muito sacri­fí­cio para exe­cu­tar pliès, ten­dus e bat­te­ments ganhou uma figu­ra­ção em Paganini, com a Companhia de Colonel de Basil. Em seguida, pas­sou a fazer parte do corpo de baile do Municipal pau­lis­tano, dan­çando as óperas Rigoleto, Carmen e Thaís.

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La fille mal gardèe

Em julho de 1945, acom­pa­nhado de seu grande amigo Johnny Franklin, desem­bar­cou no Rio de Janeiro e logo se matri­cu­lou na Escola de Dança do Teatro Municipal. No mesmo ano apresentou-se pela pri­meira vez, dan­çando um dos fau­nos de Bacanal, da ópera Tannhauser, de Wagner. Em 1949, o mes­tre e coreó­grafo tcheco Vaslav Veltchek, que diri­gia a Escola de Dança e o Ballet do Municipal, nomeou Dennis Gray o pri­meiro dan­seur de caractère da com­pa­nhia (um dan­seur de caractère recebe for­ma­ção téc­nica idên­tica a de um danseur-noble. Mas isso não quer dizer que um tenha mais valor que outro. O bai­la­rino de cará­ter deve ser tam­bém um ator ver­sá­til, um mímico pro­fun­da­mente expres­sivo, ter extrema agi­li­dade e domi­nar as dan­ças fol­cló­ri­cas, talen­tos que Dennis Gray tinha de sobra). No mesmo ano, foi pre­mi­ado como Bailarino-Revelação de 1949 pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais. Entre os anos de 1950 e 1960 o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro viveu um de seus mai­o­res momen­tos sob a dire­ção de Tatiana Leskova que orga­ni­zava duas tem­po­ra­das por ano. Sempre muito exi­gente com as core­o­gra­fias e a pos­tura dos bai­la­ri­nos, insis­tia que Dennis Gray lem­brasse sem­pre da grande mes­tra, Maria Olenewa. Sua pas­sa­gem pelo Municipal fez com que o reper­tó­rio da com­pa­nhia enri­que­cesse demais, com obras tra­di­ci­o­nais e outras core­o­gra­fa­das por ela mesma. Leskova valo­ri­zava muito bai­la­ri­nos como Dennis Gray, esfor­ça­dos e sem­pre bus­cando o melhor. Tal pos­tura ren­deu a ele papeis de des­ta­que em todas as tem­po­ra­das, e tam­bém o incen­tivo para se tor­nar coreógrafo.

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La fille mal gardèe

Ao longo da car­reira, o menino de Araçatuba pas­sou a cole­ci­o­nar prê­mios, tais como Medalha de Ouro como melhor bai­la­rino de tem­po­rada (1951); Medalha Carlos Gomes (1965); Troféu Nijinsky (1968); Medalha de Melhor Coreógrafo Brasileiro (1979); Prêmio Golfinho de Ouro (1985) e Prêmio de Bailarino-Revelação, entre mui­tos outros.

Aliando a calma e a exi­gên­cia de per­fei­ção de um vete­rano, com o ner­vo­sismo e emo­ção de um estre­ante, ele se con­sa­grou como bai­la­rino e coreó­grafo, dei­xando um rico legado para a dança no Brasil e mui­tas lem­bran­ças nos cora­ções dos alu­nos que sem­pre segui­ram seus ensi­na­men­tos. Dennis Gray tornou-se um artista com­pleto. Sempre estu­di­oso e esfor­çado, tudo no tea­tro des­per­tava seu inte­resse. Fez mímica, inter­pre­ta­ção, ceno­gra­fia, música, mas bal­let sem­pre foi a pri­o­ri­dade abso­luta, ser­vindo de lição e exem­plo de dedi­ca­ção para todos.

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Para Manoel Francisco, bai­la­rino, maî­tre do Ballet do Theatro Municipal e um dos her­dei­ros do pri­vi­lé­gio de inter­pre­tar Dr. Coppelius, “o per­so­na­gem talismã” de toda a car­reira de Dennis, segundo as pala­vras do pró­prio mes­tre. “Ele foi um dos gran­des exem­plos que tive, um artista ímpar, per­so­na­lís­simo, um ator em cena, além de grande bai­la­rino. Nossa vivên­cia no Theatro Municipal do Rio foi como mes­tre e apren­diz, sem­pre com uma grande dose de gene­ro­si­dade. Cresci artis­ti­ca­mente obser­vando, apren­dendo com as lições do mes­tre. Suas inter­pre­ta­ções de Sancho Pança em Don Quixote, Madame Simone em La Fille mal Gardée são anto­ló­gi­cas. Fui ensai­ado por ele pra inter­pre­tar Madame Simone, cer­ta­mente um dos pon­tos altos de minha car­reira. A opor­tu­ni­dade que esse papel dá ao artista é mag­ní­fica, e Dennis, com sabe­do­ria e extrema boa von­tade me deu ori­en­ta­ção, rumo, con­se­lhos. E foi espe­ta­cu­lar sen­tir a rea­ção da pla­teia a cada tra­pa­lhada de minha viúva Simone. Além do cari­nho e ami­zade que nos uniu sem­pre, o que mais me encan­tava e hip­no­ti­zava em Dennis era sua inter­pre­ta­ção de Dr. Coppelius em Coppélia. Com abso­luta cer­teza um dos mai­o­res do mundo, ele foi lou­vado, aplau­dido, incen­sado por esse que foi o maior papel de sua vida! E qual não foi minha sur­presa quando agora em 2014 ganhei a opor­tu­ni­dade de ser eu o Dr. Coppelius na tem­po­rada de Coppélia no Theatro Municipal. Dividi a cena nesse bal­let com Dennis inú­me­ras vezes, assis­tindo a majes­tosa inter­pre­ta­ção do velho fabri­cante de bone­cos. O que me ser­viu agora de ins­pi­ra­ção pra home­na­gear meu mes­tre que­rido, que lá do céu deve ter ficado feliz com seu amigo e dis­cí­pulo aqui. Minha inten­ção foi home­na­gear esse grande nome que além de amigo foi meu mes­tre; devo muito às mag­ní­fi­cas his­tó­rias e epi­só­dios de sua vida que ele divi­dia com gene­ro­si­dade. Por essas e por outras é que me sinto feliz e rea­li­zado de poder per­pe­tuar o nome de Dennis Gray, um dos gran­des artis­tas do cená­rio bra­si­leiro! Meu mes­tre e meu amigo pra sempre!”

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Manoel Francisco como Dr. Coppelius

Quanto a mim (autora deste post que vocês estão lendo), bem.… nunca fui aluna dele – nunca tive talento para ir tão longe – mas con­vi­ve­mos bas­tante quando ele assu­miu a dire­ção artís­tica da Academia Johnny Franklin depois da morte do “pro­fes­sor”. Confesso, entre­tanto, que não resisti e “filei” algu­mas bar­ras (cen­tro, nunca!!!!!!!) devi­da­mente anco­rada na expe­ri­ên­cia das minhas que­ri­das Camile Salles e Beth Tinoco. Entre as duas, se batesse uma crise de pânico, tinha de quem “colar”. Saía lite­ral­mente aos peda­ços, mas feliz da vida. Acontece que Dennis Gray sabia tanto, mas tanto, e con­se­guia trans­mi­tir todos os seus conhe­ci­men­tos com tanta maes­tria que até quando sen­tava no can­ti­nho da sala sem­pre con­se­guia apren­der alguma coisa.

Fazia o gênero zan­gado, muito zan­gado, bravo mesmo, impa­ci­ente, exi­gente e às vezes me pare­cia meio “tra­vado” quando insis­tia em abraçá-lo. Mas eu fin­gia que não estava vendo e abra­çava assim mesmo. O com­por­ta­mento era o mesmo em momen­tos de mui­tos elo­gios. Não gos­tava, gos­tando muito. Uma pes­soa fas­ci­nante, sem dúvida alguma.

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Além do ines­que­cí­vel Dr. Coppelius (perdi a conta de quan­tas vezes tive o enorme pra­zer de assisti-lo neste papel), outro que me mar­cou para sem­pre foi o da viúva Simone, em La fille mal gardèe. Quem viu cer­ta­mente não esque­cerá jamais. Como jamais esque­cerá Dennis Gray!

Em 2005, aos 81 anos, ele se foi para sem­pre, cer­cado de mui­tas home­na­gens de artis­tas do Rio de Janeiro e de todos os seus cole­gas no Theatro Municipal.

Para sem­pre????

Tenho minhas dúvidas.

Pessoas como Dennis Gray não mor­rem, ficam encantadas.

Fotos de Manoel Francisco (Acervo Particular)

Claudia Richer é jornalista, dirigiu revistas femininas importantes, foi correspondente internacional e também é atriz formada pela Uni RIo.
10 novembro 2014

Paixão e frustração no balé

Por
Foto por: KCBalletMedia

Sim, siga­mos.

Como o balé está asso­ci­ado à per­fei­ção de movi­men­tos com­ple­xos, é muito fácil se frus­trar nessa ati­vi­dade. Tenha a pes­soa a idade que tiver.

E exis­tem, sim, limi­ta­ções que o corpo vai impondo no decor­rer do tempo. As arti­cu­la­ções vão ficando mais pre­sas, os mús­cu­los mais frou­xos, o exato oposto do que pre­ci­sa­mos como bai­la­ri­nos, aliás.

Nesse cená­rio, o adulto tende a se frus­trar mais, claro.

E frus­tra­ção pode cau­sar ansi­e­dade: será que essa limi­ta­ção é definitiva?

E frus­tra­ção pode cau­sar desâ­nimo: será que vale a pena tanto sacrifício?

Como desis­tir do balé seria desis­tir de mim, acho que criei meca­nis­mos de sobre­vi­vên­cia à frus­tra­ção, para olhar com espe­rança para o movi­mento.
FOTO CHRISTINE

Colegas que come­ça­ram muito cedo, hoje, na fase adulta, vivem dizendo: ah, não con­sigo mais fazer isso, não con­sigo mais fazer aquilo.

Como come­cei agora, e ainda não tes­tei todos os meus limi­tes, sem­pre penso: AINDA não con­sigo fazer isso, AINDA não con­sigo fazer aquilo.

E tenho uma fé danada no poten­cial do corpo. E tenho uma fé danada no poten­cial que a vida tem de nos surpreender.

Se não ten­tar­mos de ver­dade, como sabe­re­mos onde pode­ría­mos ter che­gado se não com­prás­se­mos o dis­curso da limi­ta­ção? Como sabe­re­mos que a limi­ta­ção AINDA não era irreversível?

Jean Marie, meu mes­tre de balé na Sauer, cos­tuma dizer que a difi­cul­dade está muito mais na mente do que no corpo.

E con­cordo cada vez mais com isso.

Converso muito com as minhas célu­las. E sei que elas me enten­dem. Converso muito com o uni­verso, que parece enten­der minha pai­xão também.

Se a tra­je­tó­ria em busca de um sonho é antes de mais nada uma tra­je­tó­ria em busca de si mesmo, que a pai­xão nos per­mita esse mer­gu­lho no auto­co­nhe­ci­mento, por­que o “sonho” é um cha­mado que se jus­ti­fica em si mesmo, é o que o uni­verso pode ter nos con­fe­rido como pro­pó­sito de existir.

Tudo o que não quero é vol­tar ao tempo em que tinha sau­dade de mim, sau­dade do que pode­ria ter sido. Não quero, nunca mais, olhar o tempo como inimigo.

Sim, siga­mos.

Como jornalista, Christine White trabalhou em grandes veículos de comunicação, no Brasil e nos Estados Unidos, até decidir, aos 50 anos, realizar um sonho antigo: tornar-se uma bailarina. E de técnica refinada. Aqui, ela relata o dia-a-dia da transformação que tem vivido desde janeiro de 2012. E com o mesmo apetite pela informação que marcou sua vivência como repórter, ora numa CNN, ora numa Rádio Jornal do Brasil; Christine encontra agora novos caminhos para seu aprendizado "tardio" do ballet, e divide conosco seus achados.
4 novembro 2014

Ensino do ballet para adultos: Considerações - 12ª parte

Por
Foto por: KCBalletMedia

Olá, nesta pos­ta­gem pre­tendo expres­sar a minha opi­nião sobre um assunto que, hoje em dia, con­si­dero muito impor­tante: o da for­ma­ção de pro­fes­so­res de dança em nível superior.

Como disse na pos­ta­gem ante­rior, ainda não existe nenhuma regu­la­men­ta­ção que exija que nós, pro­fes­so­res da área, seja­mos licen­ci­a­dos em dança para leci­o­nar­mos em esco­las livre (aca­de­mias e esco­las de dança). Em geral, come­ça­mos a tra­ba­lhar seri­a­mente como artis­tas muito cedo e, por vezes, nos tor­na­mos pro­fes­so­res antes mesmo de ter­mi­nar­mos qual­quer graduação.

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Quando meus alu­nos adul­tos entram na minha sala de aula, não per­cebo uma pre­o­cu­pa­ção nesse sen­tido. Nunca nin­guém me per­gun­tou se eu tinha uma gra­du­a­ção, quiçá uma licen­ci­a­tura. Observo que, quando eu falo da minha expe­ri­ên­cia como bai­la­rina pro­fis­si­o­nal, os meus alu­nos ficam esti­mu­la­dos. Já quando falo da minha for­ma­ção uni­ver­si­tá­ria (Fisioterapia) e da minha pes­quisa com a dança no mes­trado (Educação Física), eles ficam sur­pre­sos, acham inte­res­sante e no máximo per­gun­tam sobre aquela “dorzinha”…(risos). O que me leva a crer que não existe, ainda, uma expec­ta­tiva dos alu­nos adul­tos de que os seus pro­fes­so­res sejam licen­ci­a­dos em dança.

Desde o começo do ensino da téc­nica do balé clás­sico, com a cri­a­ção da Academia Real de Dança na França, na segunda metade do século XVII, sob os aus­pí­cios de Luís XIV, esta nobre arte foi pas­sada de forma oral pelos gran­des mes­tres da dança que foram, antes de tudo, bailarinos. Por que hoje deve­ria ser dife­rente? Por que acho impor­tante a gra­du­a­ção em dança?

Porque reu­nir os sabe­res sem­pre amplia a dimen­são do tra­ba­lho. Acredito que mui­tos pro­fes­so­res que não são licen­ci­a­dos em dança (eu não sou) podem e ensi­nam muito bem o balé. É pre­ciso dei­xar claro que con­si­dero impres­cin­dí­vel o talento para ensi­nar e ter pas­sado pelo apren­di­zado prá­tico do balé de alto nível para ensi­nar a téc­nica. Nenhuma licen­ci­a­tura pode dar a expe­ri­ên­cia do balé e nem a voca­ção para o ensino. Sempre digo isso aos meus alu­nos na Universidade. Mas, com cer­teza a soma do teó­rico com o empí­rico vai engran­de­cer o ensino do balé. Disciplinas como Estética, Filosofia, Anatomia, Fisiologia, Pedagogia, entre tan­tas outras, podem abrir novas pers­pec­ti­vas. Posso já ima­gi­nar que pro­fis­si­o­nais incrí­veis tere­mos no futuro.

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 foto: repro­du­ção

Estudar a dança, o corpo em todas as suas pos­si­bi­li­da­des, é mara­vi­lhoso e só vai agre­gar mais valor ao tra­ba­lho do pro­fes­sor de dança. A oferta de gra­du­a­ções em Dança vem cres­cendo muito neste século. Hoje, no Brasil, temos 33 cur­sos de licen­ci­a­tura em Dança (e-Mec), sendo que o pri­meiro curso foi cri­ado há mais de cin­quenta anos na Universidade Federal da Bahia.

Mais uma vez eu digo que é pre­ciso estar ante­nado com o nosso tempo. O apren­di­zado da dança, atu­al­mente, requer mais conhe­ci­men­tos acerca do corpo e suas fun­ci­o­na­li­da­des, e da con­tex­tu­a­li­za­ção da dança, no tempo e no espaço, den­tro de sala de aula. O mundo está cada vez mais glo­ba­li­zado e espe­ci­a­li­zado e a dança acom­pa­nha a soci­e­dade em que vive. Que a licen­ci­a­tura em Dança possa ser mais uma fer­ra­menta para os pro­fes­so­res do balé clás­sico para que pos­sa­mos evo­luir sempre.

Termino citando a exce­lente pes­qui­sa­dora Mariana Monteiro: “Todo balé, quando assim se deno­mina, está impli­ci­ta­mente reconhecendo-se como her­deiro de uma tra­di­ção. O con­ceito de balé esta­ria expres­sando uma auto­cons­ci­ên­cia da dança oci­den­tal que se per­cebe como uma ruína que vive e revive em com­pro­misso estreito com o pas­sado, embora sem­pre renovado” *.

Até a pró­xima, Bjs, Helô
* MONTEIRO, Mariana. “Balé, tra­di­ção e rup­tura” In: PEREIRA, Roberto; SOTER, Silvia (orgs.). Lições de Dança 1. Rio de Janeiro: UniverCidade Ed. 2006.

Heloisa Almeida pertenceu ao Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ao Corpo de Baile do Teatro Guaíra em Curitiba. Formou-se em fisioterapia e atualmente é professora do curso de dança da UniverCidade e pertence ao corpo de professores do Lyceu Escola de Danças.
31 outubro 2014

Na agenda

Por

E-FLYER

A Loja Ana Botafogo vende artigos para ballet e dança em geral para bailarinos e simpatizantes.
29 outubro 2014

10 coisas que apendi com o ballet

Por

Ao longo des­ses anos bai­la­ri­nando e dando aulas de bal­let, aprendi algu­mas coi­sas que trago pra minha vida.

10 coi­sas que apendi com o ballet:

1 — Cada pes­soa tem seu tempo
Nem todo mundo vai apren­der no mesmo tempo e com as mes­mas faci­li­da­des das outras pes­soas. É pre­ciso enten­der isso, estando você apren­dendo ou ensi­nando. É pre­ciso con­se­guir per­ce­ber isso tam­bém. Aceitar se você é a pes­soa que demora para apren­der e res­pei­tar se você é o pro­fes­sor que pre­cisa lidar com quem não con­se­gue assi­mi­lar tão rápido, ou até assi­mila, mas não faz.

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2 — Tudo tem seu tempo
Nada acon­te­cerá do dia pra noite. No iní­cio, seja das aulas, seja na mon­ta­gem de core­o­gra­fias, seja no começo do tra­ba­lho nas pon­tas, tudo pare­cerá muito difí­cil. Só a prá­tica vai faci­li­tar. Não dá para desis­tir, a não ser que você, como aluno, se sinta mal indo às aulas.

3 — Devemos fazer o que gos­ta­mos
Não adi­anta fazer por­que a mãe quer ou por­que a escola deter­mina: não vai dar certo!!! Nem com a pes­soa que tem a maior faci­li­dade do mundo. Se ela não gosta, ela não deve ir. E tem gente que gosta, mas tem difi­cul­da­des. Essa pes­soa sim, vai cres­cer aos pou­cos, vai evo­luir, por que ela quer estar ali e quer os resul­ta­dos. Se sen­tir bem é o pri­meiro passo.

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4 — Ser res­pon­sá­vel
O bal­let é dis­ci­pli­na­dor. Você se torna mais res­pon­sá­vel e ganha tam­bém con­cen­tra­ção ao fazer as aulas. Chegue no horá­rio, use os uni­for­mes, res­peite o pro­fes­sor, bus­que melho­rias, tudo isso e muito mais faz parte da rotina de quem faz bal­let e isso vai para a vida toda.

5 — Não jul­gar o tra­ba­lho alheio
Quando a gente sabe a difi­cul­dade que é, apren­de­mos a ver o tra­ba­lho dos outros com outros olhos. Antes de sair achando algo muito ruim, vale pen­sar que aque­las pes­soas podem não ter estru­tura para fazer melhor, mas mesmo assim estão ten­tando, não desis­ti­ram de dan­çar e dos seus sonhos.

6 — Lidar com os sonhos das pes­soas
Como pro­fes­sora, devo lem­brar sem­pre que estou lidando com os sonhos daquela pes­soa. Portanto, muito cui­dado com as pala­vras, elas têm poder. Demorei para per­ce­ber isso e me colo­car no lugar das pes­soas é um exer­cí­cio que tento fazer dia­ri­a­mente para lidar com elas da melhor forma possível.

7 — Ensinar é apren­der
A pes­soa que mais aprende é aquela que ensina. Ela aprende a ensi­nar, aprende a se per­ce­ber e aprende com os erros e acer­tos das pes­soas que estão apren­dendo.  E busca mais infor­ma­ções para passar.

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8 — Passa mais ver­go­nha quem tem ver­go­nha
Quanto menos ver­go­nha você tem, menos ver­go­nha você passa. Se você for muito tímido, todos irão te notar.

9 — Nada vem de graça
“Nem o pão, nem a cachaça”. Para qual­quer coisa na vida você vai pre­ci­sar lutar muito para con­se­guir. Repetição, can­saço, exaus­tão, dis­ci­plina… Pra tudo. Precisa sem­pre fazer o seu melhor.

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10 — Comer para viver e não viver para comer
Alimentar-se sau­da­vel­mente fará bem pro corpo e pra mente.

E você, quais lições tirou e tira dia­ri­a­mente da aula de ballet?

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
24 outubro 2014

8° Seminário de Dança da Faculdade Angel Vianna

Por

Alô, alô, bailarinos!

Acontece até 26 de outu­bro, no Teatro Cacilda Becker, um semi­ná­rio impor­tante a quem se inte­ressa à pro­du­ção de dança. O evento se carac­te­riza pela cri­a­ção de um amplo campo de diá­logo entre diver­sas pers­pec­ti­vas que atra­ves­sam a exis­tên­cia no corpo.

Os con­vi­da­dos são: Ivaldo Bertazzo, Helena Katz, Dulce Aquino, Lola Brikman, Nereida Vilela, Jorge Albuquerque, todos em diá­logo com Angel. Além dos deba­tes com par­ti­ci­pan­tes do Brasil inteiro, acon­te­cem aulas prá­ti­cas, con­fe­rên­cias, pales­tras e performances.

O encon­tro dos coreó­gra­fos Paulo Caldas, Maria Alice Poppe, Márcia Rubin, Alexandre Franco, Fred Paredes e Esther Weitzman, por exem­plo, é um dos pon­tos altos do evento, segundo os organizadores.

Para outras infor­ma­ções visite o site da escola: http://www.escolaangelvianna.com.br/

A Loja Ana Botafogo vende artigos para ballet e dança em geral para bailarinos e simpatizantes.
21 outubro 2014

Cisnes no lago

Por

O Boston Ballet encon­trou uma forma super cri­a­tiva de divul­gar a nova mon­ta­gem de um dos balés mais clás­si­cos do mundo, O Lago dos Cisnes. Veja só:

Imagem de Amostra do You Tube

A ini­ci­a­tiva tam­bém foi pra recriar a per­for­mance e foto his­tó­rica do Lago dos Cisnes feita sobre as águas em 1970.

A Loja Ana Botafogo vende artigos para ballet e dança em geral para bailarinos e simpatizantes.
16 outubro 2014

Usando breu no ballet

Por

As solas de sapa­ti­lhas são natu­ral­mente escor­re­ga­dias quando novas.

Por isso, as bai­la­ri­nas usam breu para dei­xa­rem áspe­ras até as solas de suas sapa­ti­lhas pro­por­ci­o­na­rem alguma ade­rên­cia em pisos de madeira.

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Mas o que é Breu?
Significado: O breu-branco é uma forma sólida de resina de odor natu­ral agra­dá­vel e fresco, que nasce do cerne do tronco de uma árvore da Floresta Amazônica. Tem uma forte capa­ci­dade de aumento do atrito, que o torna ade­quado para aumen­tar a ade­rên­cia e o con­trole.
Nada de escor­re­gar!!
Como usar em sala de aula:
– Despeje um punhado de breu no chão em um canto da sala de dança ou fora do palco. Em um piso de madeira ou em uma caixa de breu (pequena caixa de madeira, rasa).
– Coloque suas sapa­ti­lhas ou sapa­ti­lhas de ponta. Coloque um pé na caixa de breu e esfre­gue a parte supe­rior da planta do seu pé no breu. Tire o pé e passe a mão no breu ao lado da caixa ou no chão para remo­ver o excesso.
– Mergulhe rapi­da­mente o cal­ca­nhar na caixa de breu. Bata o cal­ca­nhar na borda da caixa ou no chão para remo­ver o excesso de breu.
– Esfregue toda a planta do pé para garan­tir que seus pés este­jam gru­dando um pouco, mas não exces­si­va­mente pega­jo­sos ou exces­si­va­mente escor­re­ga­dios.
Com o tempo esse breu vai colando na sua sapa­ti­lha e dei­xando elas sujas, pois toda a sujeira do chão fica colada nela.
Não exa­gere!
Tudo que é exa­ge­rado não é bom. Não use muito breu, uma vez que ele irá aglomerar-se e impe­dir você de ser capaz de girar.

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Onde com­prar?
Em lojas de mate­rial de cons­tru­ção.
As pedri­nhas vem num saqui­nho, você as que­bra com o pró­prio pé ;)

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
13 outubro 2014

Dança On-Line

Por
Foto por: KCBalletMedia

Distância não é mais desculpa.

Hoje o pro­fis­si­o­nal da dança encon­tra diver­sas for­mas de atu­a­li­za­ção e fon­tes de conhecimento.

Durante sécu­los, vive­mos em um mundo onde era neces­sá­rio o des­lo­ca­mento para conhe­cer coi­sas e pes­soas novas. Com os avan­ços da tec­no­lo­gia, desenvolveram-se novas for­mas de conhe­cer. O encur­ta­mento de dis­tân­cias gra­ças aos avan­ços da inter­net criam meca­nis­mos que podem favo­re­cer o pro­fis­si­o­nal inte­res­sado em bus­car conhe­ci­mento e somar seu reper­tó­rio cul­tu­ral e pessoal.

Aqui, segue uma pequena lista de sugestões:

SITES

Hoje temos a sorte de encon­trar sites das mais dife­ren­tes moda­li­da­des de dança – com infor­ma­ções exclu­si­vas e de fon­tes con­fiá­veis. Vale a pena conhe­cer o tra­ba­lho das com­pa­nhias internacionais.

Deixo aqui o exem­plo do reche­ado site do New York City Ballet, que con­tém infor­ma­ções mil: do elenco atual, pas­sando pelo calen­dá­rio ofi­cial de apre­sen­ta­ções, até a his­tó­ria e os reper­tó­rios já montados.

Sem título

APLICATIVOS
A Royal Academy of Dance lan­çou no ano pas­sado o apli­ca­tivo para Android e IOS, onde pode-se com­prar as maté­rias dos exa­mes. Aos pou­cos, os níveis estão sendo atu­a­li­za­dos e as maté­rias novas já estão dis­po­ní­veis para com­pra no aplicativo.

Quem tra­ba­lha com esse mate­rial ficou exta­si­ado: não é mais neces­sá­rio aguar­dar os livros e CDs che­ga­rem do Reino Unido, o que pode­ria levar até 2 messes.

Outras com­pa­nhias tam­bém estão lan­çando apli­ca­ti­vos para com­pra de ingres­sos e informações.

VÍDEOS
Precisando de ins­pi­ra­ção? A inter­net tem um acervo incrí­vel de tra­ba­lhos de dança e mon­ta­gens core­o­grá­fi­cas para ins­pi­rar os pro­fis­si­o­nais da dança.

Além disso, lições de his­tó­ria da dança, lei­tura de nota­ção de movi­mento e tuto­ri­ais mil com­põem o que se pode bus­car online.

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA
Para quem busca se atu­a­li­zar sem­pre, a edu­ca­ção a dis­tân­cia pro­põe uma alter­na­tiva nova. No Brasil, temos a Universidade Livre da Dança. Os cur­sos vão de ceno­gra­fia e ilu­mi­na­ção a com­po­si­ção core­o­grá­fica – e todos os cur­sos são com­ple­ta­mente em por­tu­guês e pos­suem certificado.

Sem título

Quem ama a dança sem­pre busca mais. Então vamos apro­vei­tar o lado bom da inter­net para apri­mo­rar nos­sos conhe­ci­men­tos e repertório!

Minhas suges­tões:
http://www.nycballet.com/
http://www.royalacademyofdance.com.br/
http://www.cursosdedanca.com.br/

Beijos e arrasem!

foto

Cássia Martin é produtora de eventos, bailarina e pesquisadora de dança.
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