20 abril 2015

ISADORA

Por

Musa da modernidade.

O pano se levan­tou e eu vi a Grécia, não a Grécia livresca dos sone­tões de Bilac que toda uma subli­te­ra­tura oci­den­tal vazava para a colô­nia inerme. Eu vi de fato a Grécia. E a Grécia era uma cri­ança semi-nua que colhia pedri­nhas nos ata­lhos, con­chas nas praias e com elas dan­çava. O cená­rio único duma só cor abria-se para vinte sécu­los de mar, de mon­ta­nhas e de céu. E do fundo duma pers­pec­tiva irreal, as som­bras da caverna platô­nica toma­ram a carne vir­gi­nal de Ifigênia para res­sus­ci­tar a rea­li­dade única. A voz do piano arqui­te­tu­rava Gluck. Essa mulher é alga, sacer­do­tisa, paisagem.”

Isadora Duncan na praia

Isadora na praia

Assim escre­veu Oswald de Andrade quando viu Isadora Duncan dan­çar no Teatro Municipal no Rio de Janeiro e em São Paulo em agosto de 1916. Sua semi-nudez e sua dança livre arre­ba­ta­ram o público e a crí­tica. Ela vinha de uma turnê pela America do Sul sendo mal rece­bida em Buenos Aires por intensa cam­pa­nha movida pelo clero.

Aqui a crí­tica recebeu-a com calo­ro­sos elo­gios: “Todas as apre­sen­ta­ções tive­ram nume­roso público; aplau­sos con­tí­nuos e inter­mi­ná­veis e entu­si­as­ma­dos “bra­vos” e pedi­dos de “bis”, con­ce­di­dos com cari­nho e emo­ção a mara­vi­lhosa Isadora. Deu-se o caso curi­oso do público não que­rer retirar-se do tea­tro. Ninguém dese­java apartar-se da beleza.”

O poeta João do Rio a cha­mava A Divina. Gilka Machado tam­bém lhe escre­veu poe­mas e depois com­para sua filha Eros Volusia à Isadora chamando-a de a Isadora Brasileira.

Isadora trouxe à dança uni­ver­sal a huma­ni­za­ção, a refle­xão, a madu­reza, a lin­gua­gem comu­ni­ca­tiva do movi­mento inte­rior e seus pro­ces­sos estão até hoje incor­po­ra­dos ao patrimô­nio da velha escola que deles se apossa, muito embora per­sis­tam em nega-la os adep­tos do clas­si­cismo.” (Eros Volusia)

Foi influ­en­cia forte para Nina Verchinina, grande bai­la­rina e coreó­grafa que che­gou no Rio de janeiro com a Cia do Colonel De Basil, o Original Ballet Russe, e aqui ficou desde 1946 até sua morte em 1995.

Isadora foi a pio­neira da dança moderna.

Nasceu em São Francisco, Califórnia em 1878. Desde cedo anun­ciou seu desejo de dan­çar. Acompanha cur­sos de dança aca­dê­mica mas logo recusa o sis­tema, decla­rando que quer criar uma dança de acordo com seu temperamento.

Desde o iní­cio — escre­veu — ape­nas dan­cei minha vida.

Gestos natu­rais, andar, cor­rer, sal­tar, mover os bra­ços natu­ral­mente, reen­con­trar o ritmo dos movi­men­tos, ina­tos, huma­nos, per­di­dos há anos, escu­tar as pul­sa­ções da terra, obe­de­cer “à lei da gra­vi­ta­ção”, feita de atra­ções e resis­tên­cias, con­se­quen­te­mente, encon­trar uma liga­ção lógica, onde o movi­mento não para, mas transforma-se em outro, res­pi­rar natu­ral­mente — eis o seu “método”.

Ela trans­mite um lirismo incon­tes­tá­vel, uma grande riqueza vital e, final­mente, o natu­ral, que a velha Europa aco­lheu como uma nova men­sa­gem. Isadora parte para a con­quista da Europa, exa­mina aten­ta­mente as cole­ções gre­gas do Brithish Museum onde des­co­bre Homero.

Vim à Europa, para pro­vo­car um renas­ci­mento da reli­gião atra­vés da dança, para expri­mir a beleza e a san­ti­dade do corpo humano pelo movimento”.

Não é por acaso que o movi­mento pre­fe­rido de Isadora era o de jogar a nuca para trás. Este pode ser visto em cenas do rito dio­ni­síaco em toda a arte grega: é o movi­mento de transe que pro­clama ter sido o corpo pos­suído por uma ins­pi­ra­ção sobre-humana.

Temos em vários paí­ses segui­do­ras de Isadora que per­pe­tuam sua obra . Julia Levien que foi aluna de Irma e Ana Duncan dis­cí­pu­las de Isadora publica um livro em que nos fala da impor­tante con­tri­bui­ção de Isadora na edu­ca­ção das cri­an­ças. Sua escola aberta para todas as cri­an­ças de todos os níveis econô­mi­cos, defen­dia a arte como parte inte­gral do cur­rí­culo e a ideia de que as cri­an­ças devem expe­ri­men­tar seu corpo atra­vés dos movi­men­tos da dança como um cami­nho para o aprendizado.Isadora ante­cede com a aber­tura de sua escola em Grunewald, Berlim todos os que pro­pu­nham este pen­sa­mento, Steiner, Dalcroze, Maria Montessori, Shaw.

Lori Belilove, Andrea-Mantell, Julia Levien , e no Brasil Marília de Andrade, Fatima Suarez e me incluo são artis­tas que pes­qui­sam a obra de Isadora, recri­ando suas core­o­gra­fias e fazendo outras com a essen­cia e movi­men­tos de sua obra.Béjart, Frederick Ashton tam­bém cri­a­ram core­o­gra­fias revi­vendo Isadora.

A dança moderna irá variar bas­tante mas em todas as suas mani­fes­ta­ções ela ainda é a téc­nica de Isadora raci­o­na­li­zada, esva­zi­ada do roman­tismo e mis­ti­cis­mos vito­ri­a­nos e ampli­ada pela época de avan­ços e com a mul­ti­pli­ci­dade de for­ças cri­a­do­ras que ela pro­du­ziu. Não fala­mos mais de “desejo de beleza” mas cri­a­mos a nossa arte à par­tir do mesmo impulso interno” — John Martins– crí­tico de dança New York Times.

Viva Isadora Direção e coreografia Izabel Costa com  Daniela Palma Ana Paula Vale -Musica Scherzando-Trio em mi bemol maior-F.  Schubert-Foto- Leo Drumond

Viva Isadora
Direção e core­o­gra­fia :Izabel Costa
com Daniela Palma e Ana Paula Vale
Musica: “Scherzando”, Trio in mi bemol maior, F. Schubert
Foto: Leo Drumond

030 PAISAGENS IMAGINÁRIAS As Furias, musica “Le vent  dans la plaine” Debussy -Direção e coreografia- Izabel Costa

PAISAGENS IMAGINÁRIAS
As Furias, musica “Le vent dans la plaine” Debussy
Direção e core­o­gra­fia: Izabel Costa
Roteiro: Mario Drumond
Direção musi­cal :Vera Terra
Cenário: Waltercio Caldas
Figurino: Zeca Perdigão
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Com: Marina Magalhães,Carolina Padilha,Izabella Mattar, Lu Lanza Carol Brant Foto: Leo Drumond
As Furias, musica “Le vent dans la plaine” Debussy

Izabel Costa é bailarina, pesquisadora, coreógrafa e professora de Dança.
14 abril 2015

Aquecimento para as pequenas

Por

É impor­tante saber algu­mas dicas para que as cri­an­ças não se machu­quem durante os exercícios.

Um bom aque­ci­mento é a melhor forma de come­çar uma aula. Durante a aula os mús­cu­los são uti­li­za­dos, alon­ga­dos, e a cri­ança vai levan­tar a perna, cur­var o corpo, etc. Então antes de come­çar então é bom faze­rem exer­cí­cios leves, que podem ser repe­tido 10 vezes.

♥ Flex e ponta
Sentar com as cos­tas retas e as per­nas esti­ca­das a frente
Flexionar os pés para cima, isso aju­dará na meia ponta e nos sal­tos
Depois estique-os para baixo, incli­nando peito e dedos dos pés, para fazer ponta
♥ Alongar e girar os dedos das mãos
Vai aque­cer para o tra­ba­lho de mãos e bra­ços
Com as mãos for­mando uma flor aberta, jun­tar os pul­sos às pon­tas dos dedos e depois separar.

MÃOS BALLET

♥ Borboleta
Sentar-se com o pes­coço e per­nas ere­tas, jun­tar os pés e balan­çar. Vai aju­dar no en dehors.
Depois man­tendo a bor­bo­leta, levar os bra­ços para o chão na frente do corpo, para alon­gar for­te­mente o qua­dril e cos­tas. Cabeça no pé.

BORBOLETA BALLET

♥ Pular corda
Aquece muito, prin­ci­pal­mente no frio e dá fôlego!

Cuidar dos mús­cu­los se aque­cendo é muito impor­tante, e tam­bém vale lem­brar da respiração.

Boa aula!

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
9 abril 2015

10 atitudes do bom professor de dança

Por

Hoje vou falar sobre algu­mas carac­te­rís­ti­cas que acre­dito serem ide­ais para um pro­fes­sor inesquecível:

1) É pon­tual e cum­pre com­pro­mis­sos.
Os horá­rios deter­mi­na­dos pelo pro­fes­sor devem ser cum­pri­dos pri­mei­ra­mente por ele mesmo, assim como com­pro­mis­sos. Mais uma vez, o pro­fes­sor deve ser exem­plo do que espera de seus alunos.

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2) Está sem­pre em trei­na­mento.
Busca sem­pre apri­mo­rar seus conhe­ci­men­tos na área em que atua, para tra­zer a seus alu­nos o que há de melhor no uni­verso da dança.

3) Aprende com seus alu­nos.
O bom pro­fes­sor entende que cada um de nós é dife­rente e fas­ci­nante, com dias bons e ruins – e ele ouve não só as neces­si­da­des de seus alu­nos em sala de aula, mas sua expe­ri­ên­cia de vida. Afinal, o pro­fes­sor aprende muito com seus alunos.

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4) Não com­pete com seus alu­nos.
Horrível, mas sabe­mos que às vezes acon­tece. O pro­fes­sor não deve se colo­car em posi­ção de com­pe­ti­ção com seus alu­nos, deve ser um faci­li­ta­dor e um guia.

5) Nunca menos­preza um aluno.
Aluno burro NÃO EXISTE. A ciên­cia já com­pro­vou isso há tem­pos. Professor bom é aquele que entende que cada aluno tem um pro­cesso de apren­di­zado dis­tinto e cola­bora para que cada um dê o melhor de si, sempre.

6) Se porta como pro­fes­sor.
Embora faça mui­tos papéis – como de pai, amigo, con­fi­dente; o pro­fes­sor tem sem­pre que se por­tar com um edu­ca­dor. Ou seja, nada de fofo­cas, muito menos de egocentrismo.

7) Traz cul­tura para sala de aula.
Não somos ilhas, vive­mos em um mundo rico de cul­tura e diver­si­dade. Cabe ao pro­fes­sor levar ao aluno suas expe­ri­ên­cias na área, assim como infor­ma­ções que tor­nem o aluno atento à cul­tura de onde vive e do mundo.

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8) Não tem medo de admi­tir que não sabe.
Ser pro­fes­sor é exer­cer um papel muito sig­ni­fi­ca­tivo na vida dos alu­nos. Portanto, ao invés de pas­sar infor­ma­ções erra­das, o pro­fes­sor admite que não sabe e busca infor­ma­ções cor­re­tas para seus alu­nos. Somos huma­nos, não dici­o­ná­rios de dança (ou de qual­quer outra área) ambulantes.

9) Trata todos com edu­ca­ção exem­plar.
Professor é exem­plo de tudo. Inclusive da edu­ca­ção e do res­peito que seus alu­nos devem ter com ele, com os cole­gas e em todos os âmbi­tos da vida.

10) Ama o que faz.
Nada melhor do que ser feliz e tra­ba­lhar fazendo o que ama. Isso torna o pro­fis­si­o­nal melhor, mais moti­vado e mais eficiente.

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Conhece um pro­fes­sor mara­vi­lhoso? Conte para nós!

Beijos e arrasem!

Cássia Martin é produtora de eventos, bailarina e pesquisadora de dança.
6 abril 2015

O espaço e o corpo

Por

Que tal uti­li­zar o corpo para rede­se­nhar o espaço urbano?

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Sim, essa ideia pode ren­der pro­je­tos lin­dos, como o The Urban Yoga, cri­ado por Anja Humljan. Artista, arqui­teta, pra­ti­cante de yoga e dan­ça­rina, Anja espa­lha beleza pelo mundo ao se dei­xar foto­gra­far em poses incrí­veis que desa­fiam a gra­vi­dade pelos espa­ços urba­nos de luga­res como Nova Iorque e Madrid.

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Para ela, é uma forma de explo­rar a rela­ção do corpo com a cidade. Ela conta em entre­vista: “As fotos mos­tram minha jor­nada como uma arqui­teta e uma yogi usando o The Urban Yoga para explo­rar for­mas alter­na­ti­vas de com­pre­en­são da rela­ção entre o ambi­ente urbano e nosso corpo”.

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Na medida em que as poses foram pen­sa­das, o meu obje­tivo era ligar, entre­la­çar e imi­tar o espaço urbano, para que as fotos fun­ci­o­nas­sem como uma metá­fora para o fato de que enquanto nos move­mos atra­vés do espaço, nós incons­ci­en­te­mente imi­ta­mos e medi­mos a con­fi­gu­ra­ção espacial”.

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Além disso, fiz o pro­jeto para con­vi­dar as pes­soas a se ren­de­rem ao espaço urbano, com todo o seu corpo, e se entre­ga­rem aos sen­ti­men­tos que estão sendo exe­cu­ta­dos por ele.”

Bonito de ver e de ler, né? Para saber ainda mais sobre o pro­jeto, visite o site.

A Loja Ana Botafogo vende artigos para ballet e dança em geral para bailarinos e simpatizantes.
30 março 2015

A Fonte Bakhchisarai/ Bakhchisaray

Por

A Fonte Bakhchisarai” (lê-se “Bartissarai”) faz parte do iní­cio do gênero que domi­nou o bal­let sovié­tico no período Stalin (1930–1950): o “Choreodrama” ou “Dramballet”.

Ballet em 4 atos, pró­logo, 9 cenas e epí­logo. Coreografado por Rotislav Zakharov, com música de Boris Assafiev e Libretto de Nikolay Volkov. O Ballet estreou em 1934.
Na Criméia, região Ucraniana recém-anexada à Rússia, tem uma cidade cha­mada Bakhchisaray (lê-se Bartissarai), que quer dizer “jardim-palácio”, na lín­gua tártaro-criméia. Nessa cidade está loca­li­zado um palá­cio do século XVI que ser­via de resi­dên­cia para os Khans (Cãs) da Criméia. Nos jar­dins desse palá­cio existe uma fonte cha­mada “Fonte das lágrimas”.

fontesA Fonte das Lágrimas

Ao visi­tar o palá­cio, em 1820, o poeta Aleksandr Pushkin foi ins­pi­rado pela lenda de que a fonte era sím­bolo do luto do Khan Qirim Geray, que enco­men­dou a fonte em 1764, após a morte da sua amada “con­cu­bina” Dilyara. Em 1924, Pushkin publi­cou a his­tó­ria em poema “A Fonte Bakhchisaray”.

Pushkin no palácio Bakhchisaray _irmaos_ChernetsovyPintura dos irmãos Chernetsovy. “Pushikin no Palácio Bakhchisaray”, 1837.

Historia da cri­a­ção do Ballet

O com­po­si­tor Assafiev (1894–1965) e o crí­tico de tea­tro e libre­tista Nikolay Volkov foram impor­tan­tes ideó­lo­gos do gênero “Choreodrama”. Depois do sucesso da pri­meira par­ce­ria dos dois em “Chama de Paris” (1932), o tema esco­lhido foi o poema do grande poeta russo Pushkin. Sergey Radlov, então Diretor Artístico do Teatro Acadêmico de Ópera e Ballet de Leningrado (Kirov/Mariinsky) foi res­pon­sá­vel pela dire­ção do bal­let, e o seu aluno na escola téc­nica de ato­res, Rostislav Zakharov (1907–1984), o coreógrafo.

Uma das prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas e dife­ren­ças no “Choreodrama” é a impor­tân­cia do tra­ba­lho do dire­tor artís­tico, que cuida minu­ci­o­sa­mente do desen­vol­vi­mento da dra­ma­tur­gia, em cada dança, em cada gesto. O rea­lismo. Em geral, a dança só pela dança, com vários núme­ros que não movem o enredo e onde o corpo de baile par­ti­cipa mas­si­va­mente, como os gran­des “Divertissements” comuns nos bal­lets do Séc. 19, neste estilo pra­ti­ca­mente dei­xam de exis­tir. Choreodrama ou Dramballet sig­ni­fica: “dança dra­má­tica”. A lite­ra­tura é a maior fonte desse gênero.

Nossa inten­ção é cons­truir um espe­tá­culo core­o­grá­fico como uma ação de dra­ma­tur­gia, onde cada dança car­rega em si sen­tido e move adi­ante o enredo.” (R.Zakharov)

Vídeo de 1936, com Vera Vassilieva e Petr Gusev.

Libretto:

Personagens:

O nobre Adam – Senhor feu­dal polonês

Maria – a sua filha

Vatslav – noivo de Maria

Girey – Khan da Criméia

Zarema – sua esposa favorita

Nurali – chefe dos guer­rei­ros tártaros

Prólogo

Isolado no palá­cio de Bakhchisaray, o Khan Geray (Girey) está cur­vado diante da fonte de már­more, cons­truída em memó­ria da “triste Maria”.

Ato 1:

Em um antigo cas­telo comemora-se o ani­ver­sá­rio de Maria, filha de um senhor feu­dal polo­nês cha­mado Adam.

A nobre Maria deixa os con­vi­da­dos e vai se encon­trar com o seu noivo Vatslav.

Da escu­ri­dão surge o espião da legião ini­miga do Khan Girey. Ele mal teve tempo de se escon­der nas plan­tas den­sas do par­que, como guar­das polo­ne­ses que o per­se­guem entram correndo.

Enquanto isso a festa con­ti­nua. Sob os sons de uma Polonaise de gala, os con­vi­da­dos aden­tram o par­que. A diver­são ter­mina com a entrada do chefe dos guar­das, que está ferido e avisa sobre a incur­são tár­tara. O nobre Adam con­vida os homens a pega­rem suas armas. As mulhe­res se escon­dem no cas­telo. Expondo as espa­das, os polo­ne­ses se pre­pa­ram para se defen­de­rem do ata­que dos inimigos.

Os tár­ta­ros ateiam fogo ao cas­telo e matam os defen­so­res do cas­telo. Sobrevivendo mila­gro­sa­mente, Maria e Vatslav cor­rem atra­vés das cha­mas do incên­dio e do caos da bata­lha san­grenta, mas o cami­nho deles é blo­que­ado pelo líder da inva­são – o Khan da Criméia Girey. Vatslav corre na dire­ção de Girey, mas cai no mesmo momento, atin­gido pelo punhal do Khan. O Khan arranca o xale de Maria e fica imó­vel, sur­pre­en­dido pela sua beleza.

Yana Selina (Maria) e Ernest Latypov (Vatslav)

Ato II

Harém do Khan Girey no palá­cio Bakhchisaray. Dentre mui­tas con­cu­bi­nas, está a esposa pre­di­leta de Girey, Zarema.

Ressoam os trom­pe­tes de guerra. O Harém se pre­para para recep­ci­o­nar o seu senhor.

Os tár­ta­ros retor­nam com rique­zas con­quis­ta­das e car­re­gam cui­da­do­sa­mente Maria.

Pensativo, Girey entra no Harém. Zarema tenta entre­ter o Khan sem sucesso, ele nem a percebe.

Mas no rosto de Girey a feli­ci­dade está expressa, e Zarema vê como uma ama guia a nova “cap­tura” pelo salão, a nobre polo­nesa. Zarema entende que per­deu o amor de Girey.

Em vão as con­cu­bi­nas ten­tam ani­mar o seu Senhor, Zarema tenta em vão con­se­guir o amor dele de volta. Colocando Zarema de lado, o Khan sai. Zarema fica em desespero.

Dança com os sinos de mão: Sofia Skoblikova-Ivanova. Zarema: Sofia Gumerova. Segunda Esposa de Girey: Yulia Kobzar.

Ato III

Um luxu­oso quarto. Protegida por uma velha ser­vi­çal, a bela pri­si­o­neira do Khan definha-se. Uma lira é a única recor­da­ção que Maria tem da vida ante­rior, da liber­dade e feli­ci­dade que se foi. Surge um mar de lem­bran­ças da terra natal e de Vatslav.

A che­gada de Girey inter­rompe a ima­gi­na­ção de Maria. Ele pede para a moça rece­ber o seu humilde amor e toda a riqueza que a ele per­tence. Mas Maria ape­nas sente medo e repulsa por Girey, que matou o seu amado, paren­tes e ami­gos. Ele sai de forma humilde.

De madru­gada, Zarema entra no quarto da nobre. Zarema faz for­tes con­fis­sões à Maria e exige que a nobre afaste de si Girey.

Maria não com­pre­ende a fala tem­pe­ra­men­tal de Zarema, que a assusta.

Zarema per­cebe o soli­déu de Girey, que ele esque­ceu ao visi­tar Maria. O que sig­ni­fica que Girey esteve lá.

Tomada pelo ciúme, Zarema corre para Maria com um punhal. Girey corre, mas é tarde, Zarema mata Maria.

Diálogo Zarema e Maria, assas­si­nato de Maria.

Yana Selina (Maria) e Sofia Gumerova (Zarema)

Ato IV

Pátio do palá­cio do Khan Girey. Todos se cur­vam diante do Khan em um ser­vi­lismo silen­ci­oso. Nada ale­gra e pre­o­cupa o Khan: nem o retorno dos tár­ta­ros após uma nova incur­são, nem lin­das moças recém capturadas.

Zarema é levada para o local da exe­cu­ção. Ao comando de Girey, ela é jogada no abismo.

O chefe dos guer­rei­ros de Girey, Nurali, tenta dis­trair o seu Senhor e afastá-lo de pen­sa­men­tos som­brios. Mas a dança dos guer­rei­ros não traz o esquecimento.

Momento da exe­cu­ção de Zarema e dança dos guer­rei­ros tártaros:

Epílogo

Girey está na “Fonte das Lágrimas”.

Um car­re­tel de lem­bran­ças res­sus­cita repe­ti­da­mente a ima­gem da bela Maria.

Video de 1953: “Estrelas do Ballet Russo”

Com Galina Ulanova (Maria) Maya Plisetskaya (Zarema), Petr Gusev (Girey), Iuri Jdanov (Vatslav) e Igor Belski (Nurali)

Fontes: Cyclowiki, Wikipedia, site do tea­tro Mariinski, Enciclopédia do Ballet.

Ana Silvério é formada em "Coreografia, Metodologia e Pedagogia da Dança" na cidade de São Petersburgo, Rússia. Tradutora do livro de A.I.Vaganova "Fundamentos da Dança Clássica". É coreógrafa, professora, bailarina e pesquisadora da ciência da dança. Mantém a página Ana Silva e Silvério
19 março 2015

“Artist Challenge” e a viralização da dança nas redes sociais

Por

Quem está conec­tado ao Facebook e tem mui­tos ami­gos bai­la­ri­nos, com cer­teza teve a sua time­line pre­en­chida por mui­tas fotos de dança nas últi­mas semanas.

Trata-se do “Artist Challenge”, um movi­mento que sur­giu nessa rede social e fun­ci­ona como uma espé­cie de desa­fio onde o usuá­rio é per­su­a­dido a pos­tar uma ima­gem por dia dos seus tra­ba­lhos na dança durante cinco dias e, a cada dia, con­vi­dar mais dois artis­tas para par­ti­ci­pa­rem também.

O movi­mento ganhou uma enorme acei­ta­ção e cres­ceu em pro­por­ção geo­mé­trica. Confesso que pro­cu­rei saber como e de onde ele sur­giu exa­ta­mente, mas não con­se­gui uma res­posta defi­ni­tiva. Mas o que importa é que tem sido bem inte­res­sante acom­pa­nhar a his­tó­ria da car­reira dos artis­tas atra­vés des­sas fotos e de suas legendas.

Além de pro­mo­ver o artista em si, esse desa­fio pro­move a dança como um todo, já que esse tipo de rede social pos­sui milha­res de usuá­rios e pode atin­gir pes­soas que não têm con­tato com esse tipo de arte e que podem pas­sar a ter inte­resse e a gostar.

A vira­li­za­ção da dança nas redes soci­ais já é um fato. Milhares de fotos de bai­la­ri­nos são pos­ta­das por dia no Instagram, por exem­plo. Basta expe­ri­men­tar colo­car a Hashtag #Ballet na fer­ra­menta de busca que você vai poder visu­a­li­zar isto.

The Ballerina Project

Um dos movi­men­tos pio­nei­ros neste sen­tido foi o Ballerina Project, pro­jeto cri­ado pelo fotó­grafo Dane Shitagi, que regis­tra ima­gens de bai­la­ri­nas norte-americanas em luga­res urba­nos, fora do espaço tra­di­ci­o­nal do palco. Atualmente, este pro­jeto tem uma das mai­o­res redes do mundo de segui­do­res de pági­nas rela­ci­o­na­das ao Ballet, no Facebook e no Instagram. Depois, sur­giu tam­bém no Brasil o Só Bailarinos, que posta fotos de bai­la­ri­nos naci­o­nais e tam­bém de várias parte do mundo e que tem uma grande reper­cus­são online de curtidas.

Nao precisa de legenda (2)

Bom, a dança caiu na rede e está se movi­men­tando a todo vapor. Eu fui con­vi­dada por vários ami­gos para o “Artist Challenge” e cum­pri meu desa­fio, pos­tando uma foto minha de bai­la­rina quando come­cei a dan­çar em cri­ança. Desafio então todos vocês, lei­to­res, a faze­rem o mesmo! Topam?

Nao precisa de legenda

Eu sou total­mente a favor desta vira­li­za­ção da dança. Afinal, tem vírus mais bené­fico que este???

Liana Vasconcelos é bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e pela Royal Academy of Dance. É também produtora cultural formada pela Universidade Federal Fluminense.
9 março 2015

Ballet Jovem Palacio das Artes

Por

A semana pas­sada foi muito “deses­pe­ra­dora” para o pre­sente e o futuro da dança Brasileira.

A Escola do Teatro Guaíra per­deu a sua sede e, um dia depois, a Fundação Clóvis Salgado, res­pon­sá­vel pelo Palácio das Artes de Belo Horizonte, anun­ciou o fim do Ballet Jovem do Palácio das Artes.

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Eu, colu­nista do Blog Loja Ana Botafogo, me sinto triste com tais notí­cias e resolvi ade­rir a cam­pa­nha #fica­Bal­let­Jo­vem­Pa­la­ci­o­da­sAr­tes, e con­vido a todos para fazer parte dessa luta!

Assine a peti­ção e poste fotos com a hash­tag #fica­Bal­let­Jo­vem­Pa­la­ci­o­da­sAr­tes em suas pági­nas e na página do Ballet Jovem Palácio das Artes! Muito obri­gada.

Muito obri­gada!

Ana Silvério é formada em "Coreografia, Metodologia e Pedagogia da Dança" na cidade de São Petersburgo, Rússia. Tradutora do livro de A.I.Vaganova "Fundamentos da Dança Clássica". É coreógrafa, professora, bailarina e pesquisadora da ciência da dança. Mantém a página Ana Silva e Silvério
2 março 2015

O que alimenta o sonho, literalmente.

Por
Foto por: KCBalletMedia

O ensino do balé tem o quê, uns 600 anos? Por aí.

Uma arte que se sofis­tica, e demanda cada vez mais desem­pe­nho físico, exige que o bai­la­rino seja, antes de mais nada, um atleta de alta per­for­mance, eu penso.

Faria sen­tido con­ti­nuar acre­di­tando que só cri­an­ças têm alguma chance de con­se­guir resul­ta­dos, até por­que a quan­ti­dade de ener­gia que você pre­cisa mobi­li­zar para fazer os movi­men­tos vai mesmo dimi­nuindo, com o pas­sar dos anos.

A não ser que inven­tas­sem alguma coisa que aumen­tasse a capa­ci­dade do corpo, sem vio­len­tar o que parece ser a evo­lu­ção natu­ral do ser humano.

Pois é, essa coisa existe e se chama suple­men­tos. Não tinha ideia disso e con­fesso que sofri muito até conhe­cer o Paulo Gusmão, momento que marca o antes e o depois das minhas tentativas.

Primeiro, sofria com a falta de resis­tên­cia. Sentia um can­saço insu­por­tá­vel, incon­tor­ná­vel, ina­pe­lá­vel. Sem falar no fato de que qual­quer gripe que eu pegava (o que estava ficando cada vez mais fre­quente) levava umas 3 sema­nas para passar.

Nutrólogo, nunca tinha ido a um. Nem sabia que a dife­rença entre nutri­ci­o­nista e nutró­logo é que o segundo é médico. Fato é que só come­cei com o Paulo Gusmão em julho de 2013, quase um ano e meio depois de ter deci­dido, no janeiro de 2012, a me tor­nar bai­la­rina, aos 50 anos.

E uma das coi­sas mais fan­tás­ti­cas que o autor do livro “Saúde, o maior dos pra­ze­res” intro­du­ziu na minha vida, depois da von­tade de comer bonito, foi a Glutamina.

Imagina uma pes­soa com um his­tó­rico de aler­gia res­pi­ra­tó­ria desde a infân­cia e tudo o que decorre de se dor­mir mal, por conta de um nariz per­ma­nen­te­mente entu­pido. Agora, ima­gina uma pes­soa que res­pira mal e dorme mal fazendo, aos 50 anos, esfor­ços que aos 20 ela já nem cogitaria.

Deixo para o Google as expli­ca­ções sobre o que é esse ami­noá­cido cha­mado glu­ta­mina, por­que ele é tão vital tam­bém para os mús­cu­los, como atua no aumento da imu­ni­dade, etc. e tal.

O que posso dizer é que pas­sei a ter epi­só­dios cada vez mais raros de aler­gia, com isso pas­sei a dor­mir melhor e a estar mais des­can­sada para os trei­nos, no dia seguinte. E as gri­pes? Pois é, as gri­pes tornaram-se cada vez mais raras e bre­ves. Escrevo em feve­reiro de 2015. Desde julho de 2013, tal­vez tenha tido umas duas gri­pes, e passageiras.

O Paulo Gusmão cuida de mui­tos bai­la­ri­nos do Municipal. A esposa dele foi bai­la­rina. Ele conhece a rotina. Mas não é só disso que se trata. Ele tem um olhar para o con­texto humano, emo­ci­o­nal. É um médico de grande per­cep­ção, grande sen­si­bi­li­dade. Ele sabe o que sig­ni­fica mexer nos hábi­tos ali­men­ta­res de um indivíduo.

Estou aqui escre­vendo sobre a expe­ri­ên­cia com ele e sinto que pode­ria ver­ter rios de pala­vras, tal a riqueza dessa vivên­cia. Mas se pre­ciso resu­mir, para não te can­sar, digo o seguinte: não sabia que exis­tiam os tais suple­men­tos e o que eles são capa­zes – se bem cali­bra­dos – de fazer por uma pes­soa e seus sonhos.

Acho que, antes da era dos Endurox da vida, seria difí­cil mesmo pen­sar em alguém, na meia-idade, fazendo esfor­ços como tenho que fazer dia­ri­a­mente. Possivelmente, essa é uma das tan­tas razões pelas quais não tivés­se­mos pes­soas ten­tando se tor­nar bai­la­ri­nas, ou atle­tas de qual­quer estilo, depois de muito adultas.

Hoje é dife­rente. Mas, cui­dado, não reco­mendo que se tente os suple­men­tos por conta pró­pria. E por um motivo muito sim­ples: os suple­men­tos podem engor­dar. Além do que, não se iluda, nada subs­ti­tui uma ali­men­ta­ção bonita e o esforço ini­cial que pre­cisa ser feito para se ree­du­car na refi­nada arte de comer. E sobre isso vou escre­ver mais, em breve.

Chris fotos 2012 2014 comparativas

Ah, e se, além de ter mais saúde, eu ema­greci? Vou dei­xar que as fotos deste post res­pon­dam. Uma mos­tra a Chris de 2012. E a outra a de 2014. Como decor­rên­cia do balé, o corpo foi ficando mais deli­ne­ado, tudo bem. Mas o balé só teria sido pos­sí­vel com a ali­men­ta­ção certa.

Repito, nada subs­ti­tui aquela sen­sa­ção de har­mo­nia que você tem quando usa o ali­mento certo. E a segu­rança que esse bem-estar pro­duz entrou na minha vida pela porta do con­sul­tó­rio do Paulo Gusmão. E pela deter­mi­na­ção de usar todos os avan­ços que a huma­ni­dade já fez para ten­tar rea­li­zar o que mui­tos ainda con­si­de­ram impos­sí­vel: ser, sim, uma bai­la­rina. Aos 50 anos.

Se qui­ser con­ti­nuar a con­versa, dê um pulo na minha página no Facebook.

Um beijo!

Como jornalista, Christine White trabalhou em grandes veículos de comunicação, no Brasil e nos Estados Unidos, até decidir, aos 50 anos, realizar um sonho antigo: tornar-se uma bailarina. E de técnica refinada. Aqui, ela relata o dia-a-dia da transformação que tem vivido desde janeiro de 2012. E com o mesmo apetite pela informação que marcou sua vivência como repórter, ora numa CNN, ora numa Rádio Jornal do Brasil; Christine encontra agora novos caminhos para seu aprendizado "tardio" do ballet, e divide conosco seus achados.
23 fevereiro 2015

A importância do uniforme

Por

Se você ainda se per­gunta sobre a neces­si­dade de fazer as aulas de bal­let uni­for­mi­zada, segue aqui uma breve expli­ca­ção dos motivos.

É impor­tante para a rea­li­za­ção dos movi­men­tos em aula e em ensaios, que você esteja ves­tido ade­qua­da­mente. Suas rou­pas não podem atra­pa­lhar a exe­cu­ção dos exer­cí­cios e tam­bém deve ser fácil para seu pro­fes­sor te enxer­gar, para poder cor­ri­gir sua pos­tura e suas linhas.

Fica difí­cil para um pro­fes­sor visu­a­li­zar suas cos­tas, bra­ços, joe­lhos se esti­ver ves­tindo rou­pas ina­de­qua­das, lar­gas e até escu­ras (no caso de meias, por exemplo).

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Por isso, mesmo que sua aca­de­mia ou escola não exija um uni­forme com­pleto, sugere-se que vá às aulas com col­lant, meia calça clara (de pre­fe­rên­cia rosa, rosa chá ou cor da pele), sapa­ti­lhas. Você até pode usar um shorts ou uma saia curta, vai depen­der muito do seu pro­fes­sor e do nível das suas aulas.

Na época de frio, pode usar meias de lã, polai­nas, cal­ças mais jus­tas, blu­sas jus­tas, peque­nas, segunda-pele, para fazer o aque­ci­mento. Lembrando que nenhum des­ses itens podem te incomodar.

Guarde seus outros aces­só­rios para ir ao bal­let. Sabemos que você deve ado­rar cami­se­tas de bal­let, aga­sa­lhos, cal­ças lar­gas, maca­cões, mas o melhor é usar essas rou­pas para você ir até a aula e demons­trar sua pai­xão pela dança no dia a dia.

Aproveite e dê uma olhada na linda sele­ção de rou­pas da loja online da Ana Botafogo. É de que­rer tudo!

Beijo e até breve!

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
19 fevereiro 2015

Corpo a Corpo

Por

Sobre Inspiração, Tradição e Transmissão do Ballet Clássico

Esse é o meu pri­meiro texto como colu­nista aqui do Blog da Loja Ana Botafogo.

Milhares de temas vie­ram à minha cabeça para essa pri­meira escrita. Mas pen­sei então na Ana Botafogo, e lem­brei o quanto ela sem­pre foi uma ins­pi­ra­ção para mim, desde os meus pri­mei­ros pas­sos. Um exem­plo de bai­la­rina, mas acima de tudo um exem­plo de artista. Sua dis­ci­plina, pro­fis­si­o­na­lismo, entrega, humil­dade e carisma influ­en­ci­a­ram a mim e a toda uma gera­ção. E é desta forma que fun­ci­ona: os gran­des artis­tas ins­pi­ram os jovens apren­di­zes e assim a tra­di­ção da arte é man­tida e alimentada.

Ana Botafogo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Ana Botafogo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Pronto…tema já esco­lhido para minha pri­meira pro­du­ção aqui no Blog: Inspiração, Tradição, e Transmissão no Ballet Clássico.

Vamos lá!

O Ballet Clássico é por exce­lên­cia a arte da tra­di­ção. Assim como os poe­mas épicos de Homero, foi sendo trans­mi­tido de pes­soa a pes­soa ao longo dos últi­mos qua­tro sécu­los. Bailarinos são obri­ga­dos a apren­der e domi­nar os pas­sos, vari­a­ções core­o­grá­fi­cas, ritu­ais de cena e prá­ti­cas per­ti­nen­tes à car­reira. Todos estes podem se alte­rar ou mudar com o tempo, entre­tanto, o pro­cesso de apren­di­za­gem e trans­mis­são con­ti­nua pro­fun­da­mente con­ser­va­dor, como defende Jennifer Homans:

Quando uma bai­la­rina mais velha mos­tra um passo ou uma vari­a­ção a uma jovem bai­la­rina, a ética da pro­fis­são manda uma estrita obe­di­ên­cia e res­peito: ambas as par­tes acre­di­tam que, com razão, uma forma de conhe­ci­mento supe­rior está sendo pas­sada entre elas […]. Os ensi­na­men­tos do mes­tre são reve­ren­ci­a­dos por sua beleza e lógica, mas tam­bém por­que eles são a única liga­ção que o bai­la­rino mais jovem tem com o pas­sado […]. Essas rela­ções, os laços entre mes­tre e aluno, que inter­li­gam os sécu­los e dão ao Ballet a sua base no pas­sado. (HOMANS, 2010)”

Transmissao Mestre- Aprendiz

Transmissao Mestre– Aprendiz

Essa rela­ção pro­funda e res­pei­tosa entre mes­tre e apren­diz é o grande pilar da téc­nica clás­sica, que fez com que a mesma se sus­ten­tasse até os dias atu­ais. Além disso, esta téc­nica foi cons­truída sobre inú­me­ras regras de eti­queta, base­ada nas con­ven­ções da corte e nos códi­gos de civi­li­dade, hie­rar­quia e polidez.

Quando os bai­la­ri­nos sabem uma core­o­gra­fia, além da apre­en­são inte­lec­tual, eles a sabem com seus mús­cu­los e ossos. Portanto, as gran­des obras do Ballet Clássico, como “O Lagos dos Cisnes”, “La Bayadère” e “Quebra-Nozes” do coreó­grafo fran­cês Marius Petipa, não são pos­sí­veis de serem total­mente gra­va­das em docu­men­tos his­tó­ri­cos, mas sim incor­po­ra­das nos bai­la­ri­nos que já as viven­ci­a­ram. Sobre isso, Duarte Jr. acres­centa: “o saber reside na carne, no orga­nismo em sua tota­li­dade, numa união de corpo e mente […] saber implica em sabo­rear ele­men­tos do mundo e incorporá-los a nós (ou seja, trazê-los ao corpo, para que dele pas­sem a fazer parte).”.

Tamara Karsavina ensaia Margot Fonteyn

Tamara Karsavina ensaia Margot Fonteyn

Corpo a Corpo. Experimentando “na pele”, quase como um patrimô­nio cul­tu­ral ima­te­rial, com­por­tando valo­res das tra­di­ções e cos­tu­mes her­da­dos de dife­ren­tes gru­pos. Heranças, que mui­tas vezes não são toca­das, mas sen­ti­das com o cora­ção. Dessa forma que as gran­des obras da his­tó­ria do Ballet Clássico, os cha­ma­dos Ballets de reper­tó­rio, foram sendo trans­mi­ti­dos ao longo dos anos.

Mas será que nada se perde nes­sas trans­mis­sões de gera­ção a gera­ção? Não ocor­rem mudan­ças ao longo do tempo? É real­mente pos­sí­vel remon­tar hoje uma obra cri­ada, por exem­plo, há mais de um século, man­tendo inte­gral­mente a sua originalidade?

Essa refle­xão sobre a ori­gi­na­li­dade de uma obra de reper­tó­rio requer uma série de abor­da­gens. Primeiramente, ao longo dos anos, a téc­nica do Ballet Clássico foi evo­luindo. O avanço nos estu­dos da qua­li­dade ciné­tica dos movi­men­tos e da ana­to­mia foi agre­gando novas pos­si­bi­li­da­des téc­ni­cas e vir­tu­o­sas aos exe­cu­tan­tes. O corpo dos bai­la­ri­nos tam­bém mudou este­ti­ca­mente. Conforme Denise Siqueira:

Se a cul­tura recebe dife­ren­tes influên­cias, se há um novo con­texto, novas tec­no­lo­gias e téc­ni­cas, o corpo que dança– e que está inse­rido nessa cul­tura– se tor­nou um corpo dife­rente tam­bém. O tra­ba­lho mus­cu­lar, o trei­na­mento, as pró­te­ses, o sili­cone, a ali­men­ta­ção, as cirur­gias plás­ti­cas, os hábi­tos e cos­tu­mes pro­mo­vem modi­fi­ca­ções apa­ren­tes no corpo. O corpo de um dan­ça­rino ou bai­la­rino do iní­cio do século XXI é dife­rente de outro dos anos de 1950 ou ainda dife­rente de um ter­ceiro do século XIX. (SIQUEIRA, 2006)”

Também a per­cep­ção do público foi se alte­rando con­forme o momento his­tó­rico e na época da cri­a­ção des­ses gran­des Ballets, em sua mai­o­ria no século XIX, não exis­tia meios de regis­tros efi­ci­en­tes para que hoje pudés­se­mos ter ideia do que real­mente foram essas ver­sões ori­gi­nais. O que sem­pre se ten­tou pre­ser­var foi além do enredo, a iden­ti­dade da obra como um todo, a sua essên­cia poé­tica e o que ela repre­sen­tava para o momento his­tó­rico em que foi concebida.

Ballet Serenade- de George Balanchine

Ballet Serenade– de George Balanchine

Sobre as obras core­o­grá­fi­cas mais recen­tes, a par­tir do século XX, algu­mas ini­ci­a­ti­vas foram toma­das para uma melhor pre­ser­va­ção como, por exem­plo, a cri­a­ção do The George Balanchine Trust, orga­ni­za­ção res­pon­sá­vel pelos direi­tos auto­rais das obras do grande coreó­grafo russo radi­cado nos Estados Unidos, George Balanchine. Sobre isso, Jennifer Homans expõe:

Neste espí­rito, tem havido um esforço impres­si­o­nante para revi­ver ou docu­men­tar obras per­di­das, espe­ci­al­mente as de George Balanchine. Suas obras mais conhe­ci­das estão agora pro­te­gi­das e con­tro­la­das por uma orga­ni­za­ção de con­fi­ança esta­be­le­cida após a sua morte […]. Se uma com­pa­nhia de dança deseja mon­tar um de seus bal­lets, devem submeter-se à orga­ni­za­ção, que des­pa­cha repe­ti­teurs — bai­la­ri­nos que tra­ba­lha­ram com o coreó­grafo dire­ta­mente — para remon­tar a obra core­o­grá­fica. (HOMANS, 2010)”

Outras orga­ni­za­ções de mesmo estilo foram tam­bém cri­a­das para cui­dar dos direi­tos auto­rais e da pre­ser­va­ção dos tra­ba­lhos de coreó­gra­fos como Jerome Robbins, Antony Tudor e Frederick Ashton. Mas como defende Beatriz Cerbino, em seu artigo “Dança e Memória: usos que o pre­sente faz do pas­sado”, mesmo que exista uma única fonte ou orga­ni­za­ção para a remon­ta­gem des­sas obras, é neces­sá­rio per­ce­ber que ainda assim um grande número de variá­veis está pre­sente nesse pro­cesso, alte­rando manei­ras de repre­sen­ta­ção e per­cep­ção. Cada remon­ta­gem está rela­ci­o­nada ao espaço-tempo em que foram pro­du­zi­das e, por isso mesmo, nem menos e nem mais originais.

A tra­di­ção vive ao longo da expe­ri­ên­cia dos seus usuá­rios, rece­bendo nova vida e pers­pec­ti­vas fres­cas ao longo do tempo. Um espe­tá­culo nunca é igual ao outro den­tro de uma tem­po­rada de dois meses de uma com­pa­nhia de dança, que dirá de um século para o outro. Isso é uma carac­te­rís­tica nata do Ballet Clássico. Suas obras de reper­tó­rio vivem em um cons­tante pro­cesso entre a efe­me­ri­dade e a per­ma­nên­cia. A cada apre­sen­ta­ção efê­mera, que acon­tece ali na cena e se eva­pora no ar, algo per­ma­nece. E é pas­sado adi­ante. Algo intra­du­zí­vel em palavras.

É esse “algo” que faz o Ballet Clássico per­ma­ne­cer clás­sico, man­tendo vivas as obras de seu reper­tó­rio. Esse algo que só é pas­sí­vel de trans­mis­são atra­vés do corpo a corpo.

Como disse Martha Graham: “O corpo diz o que as pala­vras não podem dizer”.

Liana Vasconcelos e Ana Botafogo- Ballet La Bayadere- Temporada 2014- Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Liana Vasconcelos e Ana Botafogo– Ballet La Bayadere– Temporada 2014– Theatro Municipal do Rio de Janeiro

E para fina­li­zar, a minha eterna e tra­di­ci­o­nal reve­rên­cia à Ana Botafogo, por ser esse nosso grande exem­plo e ins­pi­ra­ção de bai­la­rina, den­tro e fora de cena!

Liana Vasconcelos é bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e pela Royal Academy of Dance. É também produtora cultural formada pela Universidade Federal Fluminense.
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