22 maio 2013

Ensino do ballet para adultos: Considerações - 7ª parte

Por
Foto por: KCBalletMedia

Olá! Continuando as con­si­de­ra­ções sobre a impor­tân­cia dos exer­cí­cios de uma aula de bal­let, minha pro­posta nesta pos­ta­gem é expli­car sobre o bat­te­ment tendu jeté e o grand bat­te­ment jeté na barra.

Battements ten­dus jetés são bati­men­tos esti­ca­dos lan­ça­dos, e que devem ser exe­cu­ta­dos com muita aten­ção e pre­ci­são. Algumas esco­las cha­mam este exer­cí­cio de bat­te­ment ten­dus glis­sés, ou bati­men­tos esti­ca­dos des­li­za­dos. Como neste exer­cí­cio os lan­ça­men­tos devem ser des­li­za­dos, os nomes para mim não fazem dife­rença. Nas minhas aulas, refiro-me a eles como bat­te­ments jetés.

As infor­ma­ções dadas nos bat­te­ments ten­dus, que fala­mos na pos­ta­gem ante­rior, devem ser man­ti­das, tais como a manu­ten­ção da rota­ção externa iso­me­tri­ca­mente durante todo o exer­cí­cio e a pelve neu­tra. O peso do corpo deve estar na perna de base, para que a outra perna possa trabalhar.

Nos bat­te­ments jetés, a perna é lan­çada com vigor a uma altura de 30º a 45º, man­tendo o des­li­za­mento dos dedos pelo chão até a com­pleta plan­ti­fle­xão (ima­gem), lembrando-se de man­ter sem­pre os pés em ever­são (ima­gem). Acho muito impor­tante fixar a altura para que o aluno não lance a perna sem con­trole. Particularmente, uti­lizo a perna na altura de 30º nos jetés e deixo para uti­li­zar a altura de 45º nos fon­dus. Os dedos dos pés devem estar com­ple­ta­mente esti­ca­dos antes de elevar-se a perna, ou seja, para fazer um bat­te­ment tendu jeté cor­re­ta­mente, deve-se rea­li­zar pre­vi­a­mente um bom bat­te­ment tendu, o que demons­tra como é coe­rente uma aula de ballet.

No retorno da perna para a posi­ção fechada, seme­lhante ao bat­te­ment tendu, deve-se nova­mente des­li­zar os dedos e, com isso, fazer um tra­ba­lho de con­tato cons­tante com o chão. Preservar as obser­va­ções dos bat­te­ments ten­dus, como come­çar com alu­nos ini­ci­an­tes na 1ª posi­ção dos pés à frente e ao lado, dei­xar para tra­ba­lhar a perna atrás quando o aluno esti­ver mais cons­ci­ente da dis­so­ci­a­ção dos mem­bros infe­ri­o­res em rela­ção à pelve e, assim que pos­sí­vel, evo­luir para as posi­ções mais fecha­das (3ª e 5ª), são de extrema impor­tân­cia para um tra­ba­lho cor­reto.  Mantenho a ori­en­ta­ção rela­tiva às dire­ções das pon­tas dos dedos à frente, ao lado e atrás, na dire­ção do cal­ca­nhar da perna de base, res­pei­tando sem­pre os limi­tes da sua rota­ção externa máxima. Como nos bat­te­ments ten­dus, acen­tu­a­ção do bat­te­ment tendu jeté é dire­ci­o­nada para den­tro, bus­cando retor­nar à posi­ção fechada. Porém, nada impede que o pro­fes­sor possa tra­ba­lhar os acen­tos para fora e, logo que puder uti­li­zar estes exer­cí­cios de mem­bros infe­ri­o­res com a coor­de­na­ção das cabe­ças e dos bra­ços com os mem­bros infe­ri­o­res, agre­gando mais bri­lho ao trabalho.

Os bat­te­ments jetés devem ser fei­tos após bat­te­ments ten­dus na barra e vão acom­pa­nhar o tra­ba­lho diá­rio. As for­ças cor­re­tas uti­li­zada nes­tes lan­ça­men­tos vão dar vigor, ale­gria e agi­li­dade aos sal­tos e aos des­lo­ca­men­tos dos bailarinos.

Já os grand bat­te­ments ou gran­des bati­men­tos seguem os mes­mos pre­cei­tos do bat­te­ment jetés, porém são fei­tos ao final da barra, quando o corpo está bem aque­cido. Neste momento, a perna deve subir a altura de 90º ou mais. Deve-se ter muita aten­ção à base e à manu­ten­ção do tronco evi­tando “sola­van­cos”. Na minha expe­ri­ên­cia, obser­vei que não é pro­du­tivo fazer gran­des alon­ga­men­tos antes dos gran­des bati­men­tos, pois alguns bai­la­ri­nos mais sen­sí­veis podem se lesi­o­nar, já que é um momento de uso de grande força mus­cu­lar. O grande bati­mento pre­para os mem­bros infe­ri­o­res para os gran­des lan­ça­men­tos, ou gran­des sal­tos no cen­tro, sendo impres­cin­dí­vel um tra­ba­lho cons­ci­ente do bai­la­rino na sua exe­cu­ção, visando alcan­çar gran­des ele­va­ções e um bom bal­lon*.

Na pró­xima pos­ta­gem, pre­tendo falar sobre os ronds de jam­bes e os fon­dus, para con­ti­nuar a enfa­ti­zar que o tra­ba­lho na barra é essen­cial para a melhora do desem­pe­nho do bailarino.

Bjs, Helô

* Segundo a mes­tra Agrippina Vaganova, o termo bal­lon é uma habi­li­dade de um dan­ça­rino em man­ter no ar uma pose, dando a sen­sa­ção de que o bai­la­rino fica parado no ar, per­ma­ne­cendo ali como se esti­vesse suspenso.

Heloisa Almeida pertenceu ao Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ao Corpo de Baile do Teatro Guaíra em Curitiba. Formou-se em fisioterapia e atualmente é professora do curso de dança da UniverCidade e pertence ao corpo de professores do Lyceu Escola de Danças.
6 maio 2013

Le Diable Amoureux / Satanella

Por

O bal­let “Satanella”, como é mais conhe­cido, na sua ver­são clás­sica e com­pleta já não é dan­çado há mui­tas déca­das, mas a sua impor­tân­cia está sem­pre pre­sente, pois é muito conhe­cido e dan­çado o “Satanella Pas de Deux”, ou “Carnaval de Veneza”, oriundo de sua ver­são completa.

História

O bal­let é base­ado no romance do escri­tor fran­cês Jacques Cazotte (1719–1792), cha­mado: “Le Diable Amoureux”, ou “O Diabo Apaixonado”, lan­çado em 1772. Esse romance, segundo o crí­tico P.G. Casteux, deu iní­cio à era fan­tás­tica da lite­ra­tura francesa.

O coreó­grafo fran­cês Joseph Mazilier (1801–1868) foi o pri­meiro a usar o livro “Le Diable Amoureux” como base para um bal­let. Ele mesmo se res­pon­sa­bi­li­zou pelo libreto, tornando-se coau­tor do mesmo, e cha­mando o grande dra­ma­turgo fran­cês Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges como prin­ci­pal autor do libreto. O resul­tado foi um Ballet-Pantomima em 3 atos e 8 cenas, com música de François Benoist para o 1º e 3º atos e Napoléon Henri Reber para o 2º ato.

O bal­let estreou em 23 de Setembro de 1840 no Ballet du Théatre l’Académie Royale de Musique, hoje “Opéra de Paris”, com décors de MM. Philastre e Cambon.

Para o bal­let, o enredo do livro foi modi­fi­cado, assim como o nome dos per­so­na­gens prin­ci­pais: Álvaro virou Frédéric, Biondetta tornou-se Uriel/Urielle.

Personagens:

Belzebu, o rei do Inferno.

O Conde Frédéric.

Hortensius, o governante/médico.

Simplice, jovem servo do conde.

Bracaccio, chefe dos piratas.

O grande mei­ri­nho (ofi­cial de justiça).

Um senhor.

Dois Piratas

Um Padre.

O grão-vizir.

Phoebée, uma cor­tesã amante do conde Frédéric.

Urielle, demô­nio feminino.

Lilia, irmã de leite do conde.

Thérésine, sua mãe.

Janetta/Zanetta, jovem serva.

Une Diablesse – uma pequena diabinha.

Enredo:

Ato I

Cena 1:

Festa nos jar­dins do cas­telo de Phoebée. Conde Frédéric, seu amante, e Hortensius, gover­nante do Conde, encontram-se ao lado dela. Lilia, uma cam­po­nesa, chama a aten­ção do Conde. Ele vai con­ver­sar com ela. Phoebée sente ciú­mes e vai buscá-lo.

Frédéric se apro­xima de Lilia nova­mente, ele só a reco­nhece quando esta se apro­xima de sua mãe, Théresine, a babá do Conde na infân­cia. Lilia é a sua irmã de leite. Ele beija a sua mão.

Phoebée rea­pa­rece e diz a Frédéric para dar ouro para a menina, mas não beija-la. Ele lhe dá um rico anel, Lilia sai. Briga de ciú­mes entre os dois aman­tes, Phoebée ter­mina com Frédéric, o que agrada Hortensius.

Phoebée faz ciú­mes em Frédéric com outros con­vi­da­dos. Frédéric se revolta e vai para a mesa de jogos, Hortensius tenta impe­dir. Frédéric não pára de jogar até o momento em que perde tudo o que tem, para a tris­teza de Lilia, que assiste a tudo, e inqui­e­tude de Hortensius. Ele sai da mesa, sendo seguido pelos outros joga­do­res e Phoebée. Os joga­do­res cobram dinheiro de Frédéric, que não tem nada. Lilia corre até ele e lhe entrega o anel, uma cruz e outras joias. Ele, emo­ci­o­nado, aceita a cruz e um rosá­rio, que serve de cor­rente. Ele beija as joias e guarda pró­ximo ao cora­ção. Hortensius o tira de lá o empurrando.

Cena 2:

Antiga bibli­o­teca gótica, loca­li­zada em uma torre de uma antiga man­são per­ten­cente ao Conde Frédéric. Em cima da lareira há uma pin­tura que retrata Belzebu colo­cando um diabo em forma de pajem para ser­vir um ante­pas­sado do conde.

Janetta e Simplice, ser­vos da man­são, entram. Barulho na porta, com medo, Janetta vai abrir. É Frédéric e Hortensius. Janetta vai acen­der a lareira. Frédéric lamenta ter per­dido tudo. Hortensius diz que ele está lá e pega alguns livros para acal­mar o conde. O conde só se inte­ressa ao encon­trar um manus­crito que ensina a evo­car o senhor das tre­vas. Hortensius tem medo, Frédéric diz que só o diabo pode lhe aju­dar agora, que ele o fará seu escravo como na pin­tura. Desenha um cír­culo, se põe no meio e evoca o diabo. Trovões, raios, as luzes se apa­gam, Frédéric desmaia.

O Belzebu apa­rece vindo da lareira. Aos seus pés, Urielle, diabo femi­nino. Belzebu acha Frédéric indigno dele, orde­nando que Urielle fique com ele na forma de um pajem, obedecendo-o, para levar sua alma depois, assim como na pin­tura. Urielle, insa­tis­feita de ter que escon­der seu sexo, obe­dece. Belzebu desa­pa­rece, a torre volta ao nor­mal e Frédéric acorda.

O conde quer tes­tar seu poder e ordena um ban­quete para ele e Hortensius. O pajem os serve. Frédéric bebe até ador­me­cer, Hortensius bebe, mas não ador­mece. O diabo, impa­ci­ente por não con­se­guir embebeda-lo, com um gesto o faz cair dor­mindo. O pajem vira Urielle, que dança atra­en­te­mente para sedu­zir o conde em seus sonhos, ter­mina tocando a sua testa com seus lábios. O conde acorda e pro­cura pela cri­a­tura gra­ci­osa que viu nos sonhos, acor­dando Hortensius. O gover­nante aponta para uma cômoda, e lá estava o pajem, não Uriele.

Chegam os cre­do­res. O pajem abre a porta, pede que os cre­do­res apre­sen­tem os títu­los das dívi­das, depois faz todos con­ge­la­rem, assim como Hortensius. Com um sinal, sur­gem vários sacos de dinheiro na cômoda. Ela coloca um na mão de cada cre­dor, mas quando eles vão con­tar, tudo vira fumaça. Eles que­rem ata­car Frédéric, o diabo mos­tra que todos os títu­los estão pagos e sai de cena rindo com Frédéric.

Fim do I Ato.

II Ato

Cena 3:

Festa no cas­telo do conde: orgia, bebida e jogo. Phoebée chega e dança. O pajem, com ciú­mes, vai dan­çar com o conde, que é enfei­ti­çado e não con­se­gue aca­bar com aquela dança estra­nha. No final, ele fica a sós com Phoebée, em um sofá. O pajem faz a ima­gem de Lilia apa­re­cer, o conde vai atrás dela.

Lilia chega com a sua mãe. Phoebée apa­rece, com ciú­mes, pega um punhal e corre para ata­car Frédéric, Lilia entra na sua frente e recebe o golpe por ele. Chega uma mul­ti­dão, o grande mei­ri­nho e outros ofi­ci­ais da lei. O diabo pega na mão de Frédéric e desa­pa­rece com ele.

Cena 4:

O mar e algu­mas casas de pes­ca­do­res. No fundo, em cima das rochas, uma capela.

Chega Bracaccio, chefe dos pira­tas, e seus pira­tas. Em uma casa, Hortensius cuida de Lilia. Chega Frédéric e a pede em casa­mento. Ela aceita e come­çam os pre­pa­ra­ti­vos. Urielle se deses­pera. Phoebée está pas­sando, vê o jovem pajem e per­gunta pelo conde. O pajem res­ponde que ele está pres­tes a se casar com Lilia. Diante da des­crença de Phoebée, num sinal do pajem, a janela da casa de Theresine se abre e pode-se ver a jovem Lilia ves­tida de branco e Janetta lhe colo­cando o véu de noiva.

Phoebée ofe­rece um saco de ouro para Bracaccio rap­tar Lilia. Quando Lilia sai de casa para o casa­mento, Bracaccio a cap­tura. Urielle ofe­rece mais dois sacos de ouro para os pira­tas leva­rem, além de Lilia, Phoebée. Eles o fazem.

O conde Frédéric desce da capela e vai até a casa bus­car sua noiva. O diabo está em seu lugar. Começam as pri­mei­ras bên­çãos e o diabo começa a ficar inqui­eto. Chegando na igreja, quanto mais Urielle aden­tra o tem­plo sagrado, mais a música muda. Quando ela está pres­tes a subir no altar, tro­vões são escu­ta­dos, as velas da igreja se apa­gam, a porta fecha vio­len­ta­mente e Urielle cai des­fa­le­cida. Todos saem cor­rendo da igreja, com medo. Frédéric leva a noiva até um banco e vê que ela é o diabo.

Simplice estava no mar e vê o rapto de longe.  Ele apa­rece para con­tar para Frédéric, que pula em um navio e vai atrás dos pira­tas, junto com outras pes­soas. As mulhe­res come­çam a rezar. O banco em que Urielle se encon­trava é rode­ado de fogo e desa­pa­rece para as entra­nhas da terra.

Fim do II Ato.

Ato III

Cena 5:

Inferno.

Urielle apa­rece no banco onde Frédéric a dei­xou. Belzebu não acre­dita na capa­ci­dade de Urielle tra­zer a alma de Frédéric, mas ela garante ser capaz. Belzebu lhe dá três dias para fazer com que o conde assine o pacto, um rolo de papel. Ela retorna para a terra.

Cena 6:.

Interior de um rico bazar cheio de escra­vos em Isfahan, atual Iran.

Bracaccio, chefe dos comer­ci­an­tes no bazar, traz novos escra­vos para ven­der. Obriga as mulhe­res a dan­ça­rem com os outros escra­vos. Lilia chora. Ouve-se um canhão, um navio euro­peu, é Frédéric com outros mari­nhei­ros. Começa o lei­lão, Bracaccio deixa as duas mais belas por último (Phoebée e Lilia). Frédéric vê Lilia, o lei­lão já come­çou. Ele dá sem­pre um lance mais alto, até apa­re­cer o Grão-Vizir. O conde não tem como ofe­re­cer mais dinheiro que o Grão-Vizir.

Ele se volta e vê Urielle, pede-lhe ajuda, ordena que ela encon­tre ouro para sal­var Lilia. O espí­rito do inferno se recusa a aju­dar. O Grão-Vizir ganha e leva Lilia para a hospedaria.

O conde Frédéric cobra de Urielle uma ati­tude para sal­var Lilia, ele diz que dá todo o seu san­gue e vida para salvá-la, mas o demô­nio diz que quer mais, quer a sua alma, mos­trando o rolo de papel. O conde se recusa a assi­nar até o momento em que vê o Grão-vizir saindo da hos­pe­da­ria com seus eunu­cos trans­por­tando Lilia em um palan­quin. Ele então pega o papel e assina o pacto.

Urielle se mos­tra ves­tida rica­mente, começa uma bela música e ela dança, cha­mando a aten­ção de todos. O Grão-vizir se sente sedu­zido e quer aquela escrava. Ela diz que per­tence a Frédéric e depende dele. O Grão-vizir per­gunta ao conde o que ele quer em troca daquela escrava, ele aponta para Lilia. A troca é feita. O conde corre para o seu navio com Lilia e é seguido pelos outros mari­nhei­ros. No momento em que o Grão-Vizir colo­ca­ria Urielle no palan­quin, ela desa­pa­rece. Ele fica furi­oso. Nesse momento passa Bracaccio com Phoebée. O Grão-Vizir leva Phoebée como sua escrava.

Cena 7:

A torre do pri­meiro ato.

Frédéric e Lilia estão jun­tos. No dia seguinte será o casa­mento. Ele está pen­sa­tivo, ela fica inqui­eta. Ele a acalma e ela vai para o seu quarto. Frédéric fica sozi­nho. Urielle chega segu­rando o pacto em uma das mãos. Ele quer saber por que ela está fazendo aquilo. Urielle con­fessa o seu amor por ele.

A mulher-demônio começa a arras­tar o conde com sua força, quando entra Lilia e se joga aos pés de Frédéric. Com um único gesto, Urielle empurra Lilia. Quando o conde vê que está per­dido, ele tira a sua adaga para gol­pear o pró­prio cora­ção. Urielle, com um gesto, pára a mão do conde.

O bem e o mal come­çam a bri­gar no cora­ção de Urielle. Surgem novos sen­ti­men­tos, e então a alma de mulher vence a do diabo. Prevalecem o amor e a com­pai­xão. Ela então diz que se per­derá por ele, mas que o sal­vará e o dei­xará ser feliz. Ela joga o pacto na lareira e morre no mesmo momento em que as cha­mas se apagam.

Lilia reco­bra os sen­ti­dos e é tomada de emo­ção junto com Frédéric. Ela começa a rezar aos céus por Urielle, o conde pega a cruz e o rosá­rio que rece­beu de Lilia no pri­meiro ato e põe sobre o cora­ção de Urielle.

Cena 8:

No Inferno.

Belzebu está rode­ado de demô­nios. Um enorme demô­nio traz Urielle em seus bra­ços e a coloca no chão, perto de Belzebu. Os demô­nios se pre­pa­ram para pular em cima de Urielle e devorá-la, quando, de repente, apa­rece um anjo, que a pro­tege e estende a mão para ela. Urielle acorda, se vê entre os demô­nios e, por ins­pi­ra­ção divina, pega a cruz e o rosá­rio que Frédéric colo­cou sobre o seu peito e mos­tra aos demô­nios, que fogem hor­ro­ri­za­dos dos sím­bo­los sagra­dos. Ela dá a mão para o anjo e ascende para o céu, sendo assis­tida com deses­pero e ódio pelos demônios.

Subindo, ao fundo vê-se a igreja do segundo ato e a pro­cis­são de casa­mento de Frédéric e Lilia.

FIM.

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O bal­let obteve um grande sucesso, sendo remon­tado em outros pal­cos euro­peus. A estreia teve Pauline Leroux no papel de Uriel, Mazilier no papel de Álvaro/Frédéric e Louise Fitz– James no papel de Lilia.

Costumes para a estréia: 

 

1 — Costumes de Satanella

2 — Costume de um dos escravos

3 — Lilia — Louise Fitz-James

4 — Urielle — Pauline Leroux

Em 10 de Fevereiro de 1848, menos de um ano após a che­gada de pai e filho na Rússia (24 de Maio de 1847), Jean Antoine e Marius Petipa estreiam a nova ver­são de “Le Diable Amoureux”, que cha­ma­ram de “Satanella, ou Amor e Inferno”. A heroína prin­ci­pal teve o seu nome mudado de Urielle para Satanella. O bal­let foi feito com base na mesma core­o­gra­fia e músi­cas do bal­let de Mazilier, com orques­tra­ção feita por Aleksandr Lyadov (Liadov). Algumas fon­tes tra­zem o nome de Konstantin Lyadov (irmão mais novo de Aleksandr) como res­pon­sá­vel pela orques­tra­ção da música, o que é um erro, pois em 1847 Aleksandr Lyadov foi nome­ado regente da Orquestra de Ballet de São Petersburgo.

Como prin­ci­pais, esta­vam: Yelena Andreyanova e Marius Petipa, que teve o nome do seu per­so­na­gem modi­fi­cado mais uma vez, de Fredéric pas­sou a se cha­mar Fabio. E Jean Petipa como Hortensius.

O sucesso foi tanto, que pai e filho foram envi­a­dos à Moscou para a remon­ta­gem do bal­let, que estreou em 19 de Janeiro de 1849, com os mes­mos bai­la­ri­nos nos papéis principais.

Em 1859, Petipa core­o­gra­fou um Pas de Deux para o Concerto de Benefício da bai­la­rina ita­li­ana Amalia Ferraris, que nada tinha a ver com o bal­let Satanella. A música uti­li­zada é de auto­ria de Cesare Pugni, que tomou como ins­pi­ra­ção alguns temas da peça de Niccolò Paganini “Carnavale di Venezia” (Op. 10). Esse Pas de Deux foi inti­tu­lado: “Carnaval de Veneza Grand Pas de Deux”.

Após algu­mas outras ver­sões do seu pró­prio bal­let “Satanella”, Petipa con­vida o com­po­si­tor Cesare Pugni para uma nova ver­são, que teve a sua estreia em 7 de maio de 1868, no Teatro do Ballet Imperial de São Peterburgo. O Pas De Deux, que tinha sido core­o­gra­fado 9 anos antes, foi inse­rido nesta nova ver­são, no 3º Ato, e foi cha­mado de “Pas de Deux Fascinação” . É essa a ver­são que per­ma­ne­ceu no reper­tó­rio russo e se tor­nou a base para ver­sões pos­te­ri­o­res na Europa. E é esse o Pas de Deux dan­çado nos Concertos de Gala e com­pe­ti­ções mundo afora.

Em 1984, o coreó­grafo russo Vassily Medvedev faz uma nova ver­são de Satanella para o Teatro Vanemuine, em Tartu, na Estônia, com músi­cas de C. Pugni, F. Benoist e N. Reber.

Em 1989, no Ballet National de Marseille, França, estreia “The Devil in Love, ou Le Diable Amoureux” core­o­gra­fado por Roland Petit, com música de Gabriel Yared, libreto de Jean Anouilh e Roland Petit. No papel prin­ci­pal estava Alessandra Ferri.

Fatos Curiosos:

  • Jacques Cazotte mor­reu gui­lho­ti­nado em 25 de Setembro de 1792, às 19:00 horas, na Place du Carrousel, em Paris, devido à sua posi­ção con­trá­ria à Revolução Francesa. Quando a Revolução come­çou, em 1789, Cazotte era pre­feito do muni­cí­pio de Pierry, Marne, região de Champagne-Ardenne, e as suas últi­mas pala­vras foram: “Eu morro como vivi, fiel ao meu Deus e a meu Rei”.

  • Existem algu­mas outras ver­sões de bal­lets base­a­dos no romance “Le Diable Amoureux”, ante­ri­o­res à ver­são de 1868 de Marius Petipa, como: “Satanella”, de Filippo Taglioni, “Ballet Fantástico em 6 par­tes”, com sua filha Marie Taglioni no papel de Satanella, feito para o Teatro La Scala em 1842. Também existe a ver­são do filho de Filippo Taglioni, irmão da legen­dá­ria Marie, Paul Taglioni, que core­o­gra­fou Satanella em 1850, em Londres, para Carlotta Grisi, remontando-o dois anos mais tarde em Berlim, para a sua filha Marie-Paul Taglioni, com o nome de “Satanella, ou Les Metamorphoses”.

Marie Taglioni e Charles Muller em “La Satanella”. DeAgostini.

  • O bal­let de Petipa foi nome­ado, e assim ainda é cha­mado na Rússia, “Satanilla”, com “i”, e não Satanella, com “e”.

  • É bem pro­vá­vel que a pala­vra “Satanella” derivou-se de “Satan”, o que sig­ni­fi­ca­ria “garota-diabo”.

Pauline Leroux e M. Élie. Ato III.
Gravura de Jules-Robert-Pierre-Joseph Challamel, publi­cada em 1846

Aleksadr Boitsov e Irina Ushakova em Satanella Pas de Deux.

 

Evgenia Obraztsova e Alexander Sergeyev, 2011.

 

Le Diable Amoureux de Roland Petit. Clique aqui para ver mais.

 

Le Diable Amoureux de Jacques Cazotte, com ilus­tra­ções de Edouard de Beaumont (1845). Música de Virgil Thomson.

 

 

 

Marie Taglioni, Satanella — 1853

Fonte para “La Satanella” da famí­lia Taglioni, cli­que aqui.

Página do coreó­grafo Vassily Medvedev com fotos do bal­let Satanella.

Ana Silvério é formada em "Coreografia, Metodologia e Pedagogia da Dança" na cidade de São Petersburgo, Rússia. É coreógrafa, bailarina, professora e pesquisadora da ciência da dança.
2 maio 2013

Características fundamentais do método russo de ensino

Por

Durante as últi­mas noi­tes fiquei ras­cu­nhando várias ideias do que escre­ver para esse blog. Muitos assun­tos inva­di­ram minha mente, che­guei até a desen­vol­ver alguns, mas por achar que os tex­tos aca­ba­ram ficando “pesa­dos” para esse nosso pri­meiro con­tato, pre­feri por hora deixá-los de lado e come­çar a tra­ba­lhar em um novo.

Há pouco, con­ver­sando no Skype com Daney Bentin (peda­goga de bal­let clássico da escola que coor­deno, minha aluna e amiga), ela me cla­reou a visão com um tema que adorei.

Assim como na escola de ensino regu­lar é fun­da­men­tal ter uma boa alfa­be­ti­za­ção, para o bai­la­rino é essen­cial seguir uma meto­do­lo­gia estru­tu­rada, seja ela a meto­do­lo­gia sis­te­ma­ti­zada por Alicia Alonso, Bournonville, Cecchetti, Balanchine ou Vaganova. Cada método tem carac­te­rís­ti­cas bem par­ti­cu­la­res, como posi­ções de bra­ços, cabe­ças, dinâ­mi­cas de pas­sos, decom­po­si­ção e exe­cu­ção deles. Nos méto­dos acima cita­dos, uma coisa é clara — o obje­tivo — e o de cada um deles é for­mar bai­la­ri­nos e torná-los os melho­res que eles pude­rem ser!

Em nos­sos encon­tros aqui nesse blog encan­ta­dor, pre­tendo falar sobre meto­do­lo­gia de bal­let, mais pre­ci­sa­mente a meto­do­lo­gia russa de ensino. Por vezes até irei men­ci­o­nar outras meto­do­lo­gias, mas nosso assunto prin­ci­pal será o método cri­ado por Agripina Vaganova.

 Na meto­do­lo­gia sis­te­ma­ti­zada e codi­fi­cada por Vaganova, a decom­po­si­ção dos pas­sos nas clas­ses ini­ci­an­tes não é ape­nas uma marca. Respeitar a decom­po­si­ção dos pas­sos, sem pular eta­pas, é uma regra a ser seguida.

Todo passo deve ter o iní­cio do seu estudo no chão. Deitados ou sen­ta­dos sobre o solo, os alu­nos irão apren­der cada passo, enten­der a sua dinâ­mica, a posi­ção cor­reta para colo­car o tronco e adqui­rir uma boa memó­ria muscular.

Na barra, o iní­cio do estudo deverá ser na 1ª fase (com o corpo de frente para a barra e com as duas mãos sobre ela), quando os alu­nos apren­de­rão cada passo na forma decomposta.

O cambrée ou souplesse para frente e para trás devem ser ensi­na­dos desde os pri­mei­ros anos.  É deles que virá o bom tra­ba­lho de alon­ga­mento e for­ta­le­ci­mento do abdô­men e das cos­tas, com isso melho­rando o arabes­que e a ele­va­ção da perna na frente. A falta de fle­xi­bi­li­dade com­pro­mete a força. Deve-se tra­ba­lhar a fle­xi­bi­li­dade antes da força. Por esse motivo, as aulas de chão visam a manu­ten­ção e/ou o aumento da flexibilidade.

É muito impor­tante a uti­li­za­ção de exer­cí­cios pre­pa­ra­tó­rios (ex: fle­xi­o­nar os pés e depois esticá-los, sem­pre pas­sando por meia ponta), que aci­o­nam a mus­cu­la­tura para a exe­cu­ção dos passos.

O acrés­cimo gra­da­tivo do número de repe­ti­ções de um mesmo passo tem por obje­tivo desen­vol­ver a resis­tên­cia muscular.

O pro­fes­sor deve insis­tir para que o ali­nha­mento do corpo seja man­tido durante os exercícios.

Os joe­lhos devem estar na dire­ção dos dedos dos pés, o qua­dril na linha dos tor­no­ze­los, os ombros na linha do qua­dril, a cabeça e a nuca na posi­ção cor­reta e o pes­coço alongado.

É neces­sá­rio cui­dado espe­cial com o foco da visão. Os alu­nos devem fixar o olhar num ponto, cada vez que a cabeça muda de posição.

O aluno deve adqui­rir uma base téc­nica forte desde os pri­mei­ros anos de estudo.

A dança clás­sica é um pode­roso com­ple­mento da edu­ca­ção for­mal, uti­li­zando e desen­vol­vendo os movi­men­tos natu­rais das cri­an­ças. O pro­fes­sor deve empre­gar os três ele­men­tos bási­cos do movi­mento — espaço, tempo e dinâ­mica — aju­dando assim a cri­ança a adqui­rir domí­nio sobre seus movi­men­tos (equi­lí­brio, força e coor­de­na­ção geral), atra­vés de téc­ni­cas ade­qua­das a cada idade e nível.

Por fim, vale lem­brar que a res­pi­ra­ção é extre­ma­mente impor­tante, tanto do ponto de vista físico quanto do emocional.

Por hoje fica­mos por aqui!

Abreijos, Fabio Matheus

 

Fabio Matheus é pós-Graduado em Repertório Clássico e Metodologia de Ensino na Kennedy (EUA) e desde 2006 faz parte do juri e pedagogos do IBC Varna (Bulgaria).
4 abril 2013

Ensino do ballet para adultos: Considerações - 5ª parte

Por
Foto por: KCBalletMedia

Olá! Continuando as minhas con­si­de­ra­ções sobre a impor­tân­cia dos exer­cí­cios de uma aula de bal­let, com­par­ti­lho com vocês algu­mas opi­niões que con­si­dero rele­van­tes sobre o tra­ba­lho do bat­te­ment tendu na barra. Já dizia a grande mes­tra Agrippina Vaganova que o bat­te­ment tendu é o fun­da­mento da téc­nica do bal­let.

Quando falo sobre os bat­te­ments ten­dus aos meus alu­nos, explico que, na ter­mi­no­lo­gia do bal­let, eles sig­ni­fi­cam “bati­men­tos esti­ca­dos”. Além disso, que são movi­men­tos de extrema impor­tân­cia para o bom desen­vol­vi­mento do tra­ba­lho dos mem­bros infe­ri­o­res no bal­let. São com estes pri­mei­ros bati­men­tos que vamos pre­pa­rar o corpo para os peque­nos e gran­des lan­ça­men­tos na barra, e que depois serão res­pon­sá­veis pela boa uti­li­za­ção dos mem­bros infe­ri­o­res nos giros, sal­tos e ele­va­ção das per­nas no centro.

Para come­çar a exe­cu­tar um bom bat­te­ment tendu, o aluno ini­ci­ante já deve com­pre­en­der a sua impor­tân­cia. Manter a rota­ção externa iso­me­tri­ca­mente durante todo o exer­cí­cio e a pelve neu­tra é con­di­ção impres­cin­dí­vel, como já foi fri­sado nas últi­mas duas pos­ta­gens. Tendo como exem­plo um bat­te­ment tendu à frente com a perna direita, deve-se aten­tar para a base que, além de man­tida em rota­ção externa, deve supor­tar o peso do corpo, para que a outra perna possa tra­ba­lhar. Ao sair, os dedos des­li­zam pelo chão até a com­pleta plan­ti­fle­xão (ima­gem), lembrando-se de man­ter sem­pre os pés em ever­são (ima­gem). Na volta, deve-se nova­mente des­li­zar os dedos e com isso fazer um tra­ba­lho de con­tato cons­tante com o chão. Em um pri­meiro momento, este tra­ba­lho é feito na 1ª posi­ção dos pés à frente e ao lado. Melhor dei­xar para tra­ba­lhar a perna atrás quando o aluno esti­ver mais cons­ci­ente da dis­so­ci­a­ção dos mem­bros infe­ri­o­res em rela­ção à pelve. Posteriormente, deve-se evo­luir para as posi­ções mais fecha­das (3ª e 5ª).  Muscularmente falando, o tra­ba­lho da plan­ti­fle­xão dos pés é um for­ta­le­ci­mento das mus­cu­la­tu­ras extrín­seca e intrín­seca dos pés e dos dedos, que vão per­mi­tir uma maior força nas impul­sões e na manu­ten­ção das bai­la­ri­nas nas pontas.

É muito impor­tante que o pé atinja sem­pre o mesmo lugar, à frente, ao lado e atrás. Costumo ori­en­tar meus alu­nos que, devem dire­ci­o­nar as pon­tas dos dedos na dire­ção do cal­ca­nhar da perna de base, res­pei­tando sem­pre os limi­tes da sua rota­ção externa máxima.

Outra obser­va­ção impor­tante é sobre a ques­tão dos tem­pos. No iní­cio, os bat­te­ments ten­dus são fei­tos len­ta­mente, sem acen­tos brus­cos para que o aluno possa apre­en­der o tra­ba­lho. Já nas clas­ses adi­an­ta­das, estes bati­men­tos podem e devem ser mais ace­le­ra­dos. Em geral, a acen­tu­a­ção do bat­te­ment tendu é dire­ci­o­nada para den­tro, bus­cando retor­nar à posi­ção fechada. Porém, nada impede que o pro­fes­sor possa tra­ba­lhar os acen­tos para fora.

Fonte das ima­gens: www.auladeanatomia.com

À medida que o tra­ba­lho vai ficando mais ela­bo­rado, estes exer­cí­cios pas­sam a uti­li­zar a coor­de­na­ção das cabe­ças, dos bra­ços com os mem­bros infe­ri­o­res agre­gando assim mais bri­lho ao trabalho.

Em momento algum o bai­la­rino deve per­der o obje­tivo que per­meia este exer­cí­cio, que é o de usar o chão e ganhar força, velo­ci­dade e agi­li­dade. Como nos pliés, este passo vai acom­pa­nhar o aluno/bailarino do pri­meiro dia de aula até o último.

Enfim, o bal­let é uma arte que exige um conhe­ci­mento minu­ci­oso de cada exer­cí­cio. Esmiuçar os deta­lhes do nosso tra­ba­lho cor­po­ral coti­di­ano é um dos cami­nhos para melho­rar nossa dança e supe­rar as difi­cul­da­des dessa tão bela arte.

Bjs, Helô

 

Heloisa Almeida pertenceu ao Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ao Corpo de Baile do Teatro Guaíra em Curitiba. Formou-se em fisioterapia e atualmente é professora do curso de dança da UniverCidade e pertence ao corpo de professores do Lyceu Escola de Danças.
23 março 2013

O excesso de suor nos pés, você e a dança

Por

Não muito inco­mum, o excesso de suor nos pés (ou hipe­ri­drose plan­tar) é uma pato­lo­gia com­plexa cujos sin­to­mas ultra­pas­sam a esfera estética.

Incontrolável, insu­por­tá­vel, ina­cei­tá­vel…  não há nada pior do que andar ou dan­çar e sen­tir os pés  “des­li­zando” em um com­passo  con­trá­rio a sua vontade.

Para pio­rar, esta con­di­ção não rara­mente vem acom­pa­nhada de infec­ção por fun­gos nas unhas ou pés  e mau cheiro intenso nesta região deno­mi­nada bro­mi­drose , decor­rente  do excesso de calor e umi­dade retido e man­tido ao longo do dia.

A causa do excesso de suor é neu­ro­ló­gica. Os peque­nos file­tes ner­vo­sos res­pon­sá­veis pela con­tra­ção da glân­dula sudo­rí­para (aquela que pro­duz o suor) está supe­ra­ti­vado nes­tes paci­en­tes, fazendo com que uma quan­ti­dade maior de suor seja pro­du­zida e eli­mi­nada atra­vés da pele de maneira nada gen­til. Pode aco­me­ter axi­las, mãos e pés, mais comumente.

Diante disso, fica fácil enten­der que o tra­ta­mento mais “defi­ni­tivo “ é rea­li­zado pelo neu­ro­lo­gista, atra­vés de um pro­ce­di­mento de corte deste pequeno nervo ter­mi­nal, impe­dindo a super esti­mu­la­ção da glân­dula sebá­cea, em uma cirur­gia conhe­cida como simpatectomia .

Dentre as outras opções tera­pêu­ti­cas  dis­po­ní­veis de maneira mais pro­vi­só­ria, encontra-se a apli­ca­ção de toxina botu­lí­nica e o uso de subs­tân­cias tópi­cas em cre­mes ou sprays anti­trans­pi­ran­tes, com resul­ta­dos satisfatórios.

Atualmente, os tal­cos em creme com ação anti– trans­pi­rante e anti-fúngica são gran­des ali­a­dos para com­ba­ter dia­ri­a­mente o temido suor de uma maneira prá­tica, não inva­siva e con­for­tá­vel por conta de sua seca­gem mais rápida e toque ultra seco.

Ainda, vale a pena res­sal­tar que aspec­tos emo­ci­o­nais como ansi­e­dade e estresse  exces­si­vos influ­en­ciam  muito na evo­lu­ção e no con­trole desta desa­gra­dá­vel condição.

Um grande beijo e até logo!

Dra. Fernanda Aguirre

 

Fernanda Aguirre Bottura é dermatologista, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia e do Grupo Brasileiro do Melanoma e Preceptora do ambulatorio de Dermatologia da UFMT, Mato Grosso.
19 março 2013

A hidratação no ballet

Por

Vocês bailarinos(as), sabem que exis­tem gran­des per­das de líqui­dos e de mine­rais durante a prá­tica da dança e de exer­cí­cios físi­cos em geral. Sendo assim, man­ter uma hidra­ta­ção ade­quada é fun­da­men­tal para que sua saúde e seu ren­di­mento durante os trei­nos e apre­sen­ta­ções não sejam prejudicados.

Quando pra­ti­ca­mos ati­vi­dade física, nossa taxa de trans­pi­ra­ção é bas­tante variá­vel, e por isso, deve­mos sem­pre ter a cer­teza de que o con­sumo de líqui­dos está ocor­rendo de maneira correta.

Muitos atle­tas se per­gun­tam: “Mas em qual momento devo me hidra­tar?”. É impor­tante lem­brar que a desi­dra­ta­ção ante­cede a sede, ou seja, a sede é um sin­toma tar­dio de que algo está fal­tando. Quando sen­ti­mos sede, nosso orga­nismo já está desidratado!

Precisamos obser­var, além do con­sumo de líqui­dos, o local onde pra­ti­ca­mos os exer­cí­cios. Por exem­plo, se a sala de aula em que esta­mos pra­ti­cando o bal­let está com uma tem­pe­ra­tura muito alta, os pre­juí­zos podem ser ainda maiores.

Vamos enten­der um pouco sobre o mecanismo:

O calor pro­du­zido pelos mús­cu­los em ati­vi­dade pode che­gar a até 100 vezes o calor pro­du­zido pelos mús­cu­los que estão “ina­ti­vos”. Se o orga­nismo arma­ze­nasse esse calor em vez de mandá-lo embora, nossa tem­pe­ra­tura interna se ele­va­ria muito, resul­tando em hiper­ter­mia (supe­ra­que­ci­mento). Para que isso não ocorra, o orga­nismo pos­sui um meca­nismo que avisa esse aumento de tem­pe­ra­tura e ativa os refle­xos asso­ci­a­dos à perda de calor. Portanto, a par­tir da ele­vada pro­du­ção de calor gerada pelo exer­cí­cio físico, ocorre a sudo­rese (perda de água, sódio, clo­reto, potás­sio…), pro­mo­vendo a neces­si­dade de repor essas perdas.

Quando não repos­tas cor­re­ta­mente, ocorre o pre­juízo ao desem­pe­nho atlé­tico tanto em espor­tes de longa dura­ção quanto nos exer­cí­cios inten­sos. Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva: “(…) esses efei­tos podem ocor­rer mesmo que a desi­dra­ta­ção seja leve ou mode­rada, com até 2% de perda do peso cor­po­ral, agravando-se à medida que ela se acen­tua. Com 1 a 2% de desi­dra­ta­ção inicia-se o aumento da tem­pe­ra­tura cor­po­ral em até 0,4°C para cada per­cen­tual sub­se­quente de desi­dra­ta­ção. Em torno de 3%, há redu­ção impor­tante do desem­pe­nho; com 4 a 6% pode ocor­rer fadiga tér­mica; a par­tir de 6% existe risco de cho­que tér­mico, coma e morte.”

De acordo com o “American College of Sports Medicine” a repo­si­ção de líqui­dos para quem pra­tica exer­cí­cios deve ser da seguinte forma:

–Deve-se inge­rir apro­xi­ma­da­mente 500 mL de líqui­dos nas duas horas ante­ce­den­tes ao exercício;

–Durante o exer­cí­cio, os atle­tas devem come­çar a beber desde o iní­cio e em inter­va­los regu­la­res (a cada 15–20 minu­tos de exercício);

- A par­tir de 1 hora de exer­cí­cio, inge­rir de 600‑1200 mL de líqui­dos por hora de exercício;

–Recomenda-se a adi­ção de quan­ti­da­des ade­qua­das de car­boi­dra­tos e ele­tró­li­tos para even­tos com dura­ção maior do que uma hora.

Dicas para colo­car­mos em prática: 

- Perda de peso é um impor­tante indi­ca­dor de desi­dra­ta­ção. Fique de olho!

- Procure sem­pre a ajuda de um pro­fis­si­o­nal qua­li­fi­cado. Ele pode veri­fi­car sua % de perda de peso cor­po­ral durante a ati­vi­dade física e te auxi­liar a man­ter uma boa hidra­ta­ção (pesar antes e após a com­pe­ti­ção ou trei­na­mento é um pro­ce­di­mento sim­ples e efe­tivo para deter­mi­nar o quanto de líqui­dos deve ser ingerido).

- Não espere sen­tir sede para se hidra­tar: deixe sem­pre uma gar­ra­fi­nha na mesa do escri­tó­rio, na sala de aula, no carro, etc.

- Observe sem­pre a cor da urina, quanto mais escura e con­cen­trada, maior a neces­si­dade de se hidratar.

- Outras con­sequên­cias da má hidra­ta­ção são: intes­tino preso, celu­lite, pro­ble­mas renais, pele e cabe­los res­se­ca­dos e desi­dra­ta­dos, fique atento aos sinais!

Água

A água é essen­cial para que outros nutri­en­tes fun­ci­o­nem ade­qua­da­mente. Entre suas prin­ci­pais fun­ções, estão: a capa­ci­dade de for­ne­cer mate­rial às célu­las e pro­te­ger os teci­dos cor­po­rais, a manu­ten­ção do balanço apro­pri­ado entre a água e os ele­tró­li­tos em nosso corpo, ser o maior meio de trans­porte de oxi­gê­nio, nutri­en­tes, hormô­nios e outros com­po­nen­tes das célu­las, além de aju­dar na eli­mi­na­ção de pro­du­tos inde­se­já­veis e regu­lar a tem­pe­ra­tura corporal.

Durante todo o dia, a água é eli­mi­nada atra­vés da urina, fezes, suor e tam­bém pela res­pi­ra­ção. Agora, ima­gina durante a ati­vi­dade física? Essa eli­mi­na­ção ocorre de forma muito mais ativa, o que sig­ni­fica um maior cui­dado no con­sumo de água. Falando em con­sumo… a reco­men­da­ção diá­ria de água é de, apro­xi­ma­da­mente 2 litros, o que repre­senta de 6 a 8 copos por dia.

Mas, e os outros líqui­dos? Podemos subs­ti­tuir? Bom, o con­sumo da água mine­ral é bas­tante impor­tante, porém, exis­tem opções que tam­bém podem aju­dar na hidratação:

- Os sucos natu­rais (e como segunda opção, sucos de pol­pas de fru­tas), são ótimas fon­tes de vita­mi­nas e mine­rais, além de aju­dar na hidra­ta­ção. A adi­ção de açú­car nos sucos deve ser mini­mi­zada (caso a fruta esco­lhida não seja muito doce, tente adi­ci­o­nar outra fruta mais ado­ci­cada para subs­ti­tuir a adi­ção do açú­car). Lembre-se sem­pre de diluir o suco em água: sucos muito con­cen­tra­dos podem ultra­pas­sar a reco­men­da­ção de fru­tas (3 a 5 por­ções por dia).

- Os sor­ve­tes de fru­tas tam­bém são uma boa opção, prin­ci­pal­mente em dias quen­tes. Tome cui­dado com sor­ve­tes a base de cho­co­la­tes e cre­mes, a quan­ti­dade de gor­dura e calo­ria é bas­tante ele­vada e não for­ne­cem tan­tas vita­mi­nas e mine­rais como os de frutas.

- Vale a pena optar por chás de ervas cla­ras, pres­tando sem­pre aten­ção na adi­ção do açúcar.

- As bebi­das espor­ti­vas são bas­tante reco­men­da­das para a repo­si­ção de água, ele­tró­li­tos e car­boi­dra­tos, depen­dendo da inten­si­dade e tempo da sua ati­vi­dade. Procure um pro­fis­si­o­nal para te auxi­liar nesse consumo.

- Frutas e hor­ta­li­ças aquo­sas tam­bém ajudam!

Anotou?

Tânia Rodrigues é nutricionista especialista em Fisiologia do Exercício e Nutrição Esportiva e diretora técnica da RG Nutri - Clínica e Nutrição Esportiva.
3 março 2013

Ballet em foto

Por

A dica da semana é para quem ama foto­gra­fia e, prin­ci­pal­mente, enxer­gar o mundo do bal­let por outro ângulo…

O blog Tutus and Tea traz o dia a dia da bai­la­rina Shelby Elsbree, regis­trado por ela mesma em cli­ques sen­sí­veis, sim­ples e boni­tos. Apaixonada por dança, via­gens e culi­ná­ria, Shelby pas­sou a foto­gra­far por pra­zer e ape­sar do port­fo­lio já cheio de per­so­na­li­dade e do olhar apu­rado, ainda se con­si­dera uma aprendiz.

O blog é em inglês, mas vale a visita mesmo se você não domina a lín­gua, afi­nal, as ima­gens real­mente valem mais do que mil palavras.

Para conhe­cer mais sobre o tra­ba­lho foto­grá­fico de Shelby, só cli­car aqui.

Carol Lancelloti é bailarina de primeira viagem. Começou aos 21 para nunca mais parar e desde então, divide com outras "bailarinas adultas" suas descobertas, dificuldades e alegrias no mundo da dança. É fotógrafa, amante das artes e dedica seu tempo livre a sua revista virtual, a Lagarta.
16 fevereiro 2013

Ensino do ballet para adultos: Considerações - 4ª parte

Por
Foto por: KCBalletMedia

Olá! Iniciando as minhas obser­va­ções sobre a téc­nica clás­sica e con­ti­nu­ando as con­si­de­ra­ções da pos­ta­gem ante­rior sobre a rota­ção externa, mais conhe­cido no mundo do bal­let como en dehor, esco­lhi falar neste texto sobre o tra­ba­lho impor­tan­tís­simo do plié na aula de bal­let.

Explico sem­pre aos meus alu­nos que plié quer dizer fle­xi­o­na­mento ou dobra­mento dos joe­lhos em rota­ção externa. Ele é feito nas cinco posi­ções dos pés. Segundo Agrippinna Vaganova, em seu livro “Princípios Básicos do Ballet Clássico”, o plié está pre­sente em todos os pas­sos de dança e por isso deve ser tra­ba­lhado com muita aten­ção, pois bai­la­ri­nos sem um bom plié, têm um desem­pe­nho seco e pouco plástico.

O plié é como uma mola pro­pul­sora no bal­let. Consiste basi­ca­mente do tra­ba­lho dos mem­bros infe­ri­o­res de se dobra­rem e esti­ca­rem para rea­li­zar pas­sos como sal­tos, giros, enfim, para impul­si­o­nar e male­a­bi­li­zar os movi­men­tos. Ora, mesmo fora do bal­let, sem­pre que vamos cor­rer, sal­tar, pre­ci­sa­mos fle­xi­o­nar nos­sos joe­lhos para impul­si­o­nar o movi­mento. Com o bal­let não é diferente.

Este passo vai acom­pa­nhar o bai­la­rino desde o pri­meiro dia de aula até o último, e é neces­sá­rio se ter, como afir­mou Vaganova, muita aten­ção na sua exe­cu­ção. O aluno ini­ci­ante aprende pri­meiro o demi-plié nas pri­mei­ras posi­ções dos pés e evo­lui para os gran­des pliés em todas as posi­ções. A pri­meira aten­ção antes de ini­ciar o plié, deve ser a manu­ten­ção da rota­ção externa dos mem­bros infe­ri­o­res durante todo o exer­cí­cio. Aliás, como escrevi no minha pos­ta­gem ante­rior sobre o en dehor, a manu­ten­ção da rota­ção externa deve ser uma pre­o­cu­pa­ção cons­tante durante toda a aula. Lembrando sem­pre que a pelve deve estar na posi­ção neu­tra, sem retro, nem anteroversão.

Outro aspecto muito impor­tante é a ques­tão do for­ta­le­ci­mento e alon­ga­mento mus­cu­lar que o passo desen­volve nos bai­la­ri­nos. O qua­drí­ceps, tanto na des­cida (excen­tri­ca­mente), como na subida (con­cen­tri­ca­mente), é muito exi­gido e se for­ta­lece a cada plié. Os mús­cu­los da pan­tur­ri­lha por sua vez, se alon­gam e tam­bém se for­ta­le­cem ao máximo e vão agir como uma mola para os sal­tos futuros.

A ques­tão da coor­de­na­ção de bra­ços e cabeça com os exer­cí­cios do plié tam­bém vão cola­bo­rar imen­sa­mente para o tra­ba­lho do bai­la­rino. Um plié bem “acom­pa­nhado” de port de brás, asso­ci­ado ao tra­ba­lho da cabeça vai dar ao artista uma beleza singular.

Enfim, o plié é de uma impor­tân­cia cru­cial para o aluno, seja ele um apren­diz ou um pro­fis­si­o­nal. Mas, espe­ci­al­mente para quem está come­çando na téc­nica clás­sica, eu sugiro que faça sem­pre os seus pliés com muita aten­ção e cui­dado, para que o seu corpo possa ser bem trei­nado e possa expres­sar toda a arte que está na alma do bailarino.

Bjs, Helô

Heloisa Almeida pertenceu ao Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ao Corpo de Baile do Teatro Guaíra em Curitiba. Formou-se em fisioterapia e atualmente é professora do curso de dança da UniverCidade e pertence ao corpo de professores do Lyceu Escola de Danças.
22 janeiro 2013

La Sylphide

Por

O bal­let “La Sylphide” foi revo­lu­ci­o­ná­rio e deter­mi­nante para o desen­vol­vi­mento pos­te­rior da arte do bal­let em sua forma de espe­tá­culo. Após a revo­lu­ção fran­cesa em 1789, o sen­ti­mento de que a exis­tên­cia não mais era fácil e har­mo­ni­osa na atmos­fera anô­nima e opres­siva da revo­lu­ção indus­trial, deu-se ori­gem ao pen­sa­mento Romântico: a dua­li­dade entre o mundo real e dos sonhos.

La Sylphide foi o pri­meiro bal­let a expres­sar com­ple­ta­mente a filo­so­fia Romântica, onde o herói está pres­tes a sucum­bir den­tro do “sta­tus quo”, mas desiste de tudo para bus­car a ver­da­deira feli­ci­dade. Ele intro­duz uma visão lírica de um mundo sobre­na­tu­ral, para­lelo à rea­li­dade, povo­ado por seres tão impal­pá­veis quanto os sonhos. Ao per­der o sonho, o herói tam­bém perde a sua vida.

O bal­let La Sylphide foi core­o­gra­fado por Filippo Taglioni, espe­ci­al­mente para a sua filha, a legen­dá­ria Marie Taglioni. O libreto escrito pelo tenor Adolphe Nourrit, que teve a ideia ini­cial do bal­let, foi ins­pi­rado no conto de Charles Nodier “Trilby, ou Le lutin d’Argail”. No livro, a his­tó­ria é sobre um duende e a esposa de um pes­ca­dor, mas para o bal­let, os sexos dos pro­ta­go­nis­tas foram tro­ca­dos, pas­sando a ser sobre um fazen­deiro e uma “fada” — isso daria mais opor­tu­ni­dade de explo­rar a dança da bailarina.

Com música do com­po­si­tor fran­cês Jean-Madeleine Schneitzhoeffer, o bal­let estreou em 12 de Março de 1832 na Salle Le Poletier da Ópera de Paris. Foi um grande sucesso e Marie Taglioni tornou-se, de ime­di­ato, a “divina Taglioni”.

 Marie Taglioni em La Sylphide, 1832.

No espe­tá­culo exposto em dois atos, o pri­meiro retrata a vida mun­dana em algum lugar da Escócia, enquanto o segundo ato acon­tece em uma flo­resta e apre­senta seres sobre­na­tu­rais. Pela pri­meira vez, a dança teve mais espaço que a pan­to­mima e os movi­men­tos foram pen­sa­dos e com­pos­tos como forma de trans­mi­tir o enredo da his­tó­ria. Também, pela pri­meira vez, a sapa­ti­lha de ponta foi uti­li­zada como forma de trans­mis­são das ideias, parte da com­po­si­ção do per­so­na­gem. A Sílfide — Taglioni — se apre­sen­tou fazendo uso desta téc­nica do iní­cio ao fim do bal­let, téc­nica que mais tarde foi cha­mada de “dança clássica”.

Para o Segundo Ato, foi dese­nhado um ves­tido que des­cia um pouco mais baixo do joe­lho, feito de mate­rial trans­pa­rente e de cor branca. Esse figu­rino, assi­nado por Eugène Lami, tornou-se o pri­meiro tutu de bal­let, e o ato em si, asso­ci­ado ao tutu, deu ori­gem a uma das mar­cas do bal­let român­tico: “les bal­lets blancs” – ou balés bran­cos, onde pelo menos um dos atos da obra, ou toda ela, se passa em um mundo ine­xis­tente ou ambi­ente neu­tro, com os seus per­so­na­gens ves­tindo basi­ca­mente branco. Em geral, é dan­çado pelo corps de bal­let feminino.

Em 1834, den­tre os espec­ta­do­res de “Le Sylphide” em Paris, estava August Bournonville, coreó­grafo e bai­la­rino do Teatro Imperial de Copenhague. Ele se encan­tou pela obra e dois anos mais tarde, em 1836, resol­veu montá-la na Dinamarca. A ideia ini­cial era remon­tar a ver­são ori­gi­nal de Taglioni, mas a Ópera de Paris cobrou um preço muito alto pela par­ti­tura de Schneitzhoeffer, invi­a­bi­li­zando os pla­nos e empur­rando a solu­ção para uma nova ver­são. É a ver­são de Bournonville, estre­ada em 28 de Novembro de 1836, com música de Herman Severin Løvenskiold, que mais conhe­ce­mos hoje. Esse espe­tá­culo nunca saiu de car­taz no Royal Danish Ballet.

O coreó­grafo fran­cês Pierre Lacotte ten­tou remon­tar a ver­são ori­gi­nal de Taglioni, em 1972, para a Ópera de Paris. Como a core­o­gra­fia ori­gi­nal já havia se per­dido, ele se baseou em notas, dese­nhos e expli­ca­ções arqui­va­das da época da cri­a­ção do bal­let. A core­o­gra­fia de Lacotte é no estilo da época, mas com­ple­ta­mente nova, o que lhe ren­deu algu­mas crí­ti­cas como sendo não autêntica.

A ver­são de Lacotte é a mais dan­çada pelas com­pa­nhias bra­si­lei­ras. Segundo o site do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a pri­meira mon­ta­gem deste bal­let no mais impor­tante palco do país foi durante a dire­ção de Emilio Kalil, que foi de 1995 a 1998.

Personagens:

James Ruben: um fazen­deiro escocês.

A Sílfide: uma fada, um espí­rito das flo­res­tas nórdicas.

Gurn: amigo de James.

Effie: A noiva de James.

Madge: a feiticeira.

A mãe de Effie.

Enredo:

Ato I – Uma casa de fazenda escocesa.

James, um fazen­deiro esco­cês, irá se casar com uma moça cha­mada Effie. Na noite de vés­pera do casa­mento, James dorme em uma cadeira perto da lareira. Uma Sílfide apa­rece e dança o seu amor por ele, depois lhe dá um beijo. James acorda e fica encan­tado pela visão. Ele tenta segurá-la, mas ela voa pela cha­miné. Ele acorda o seu amigo Gurn, que diz não ter visto nada, e lem­bra James que hoje é o dia do seu casamento.

Effie chega com a sua mãe e madri­nhas. A bruxa Madge apa­rece no lugar onde a Sílfide foi vista por último — perto da cha­miné. James vai até lá e fica desa­pon­tado por não ser a Sílfide. Ele tenta expul­sar a bruxa, mas é con­tido pelos con­vi­da­dos que que­rem que ela leia a sorte deles. Dentre as pre­vi­sões, Madge diz a Effie que ela se casará com Gurn, e diz que James ama outra pes­soa. O noivo, furi­oso, expulsa a bruxa de casa.

Enquanto todos se arru­mam para o casa­mento, James fica a sós na sala, quando Sílfide rea­pa­rece. Ela con­fessa o seu amor por ele, que acaba não resis­tindo, e a beija. Observando escon­dido à cena, está Gurn, que secre­ta­mente ama Effie. Gurn vai atrás de Effie para con­tar o que ele tinha visto, mas ao retor­na­rem, a Sílfide já tinha desaparecido.

Começa o casa­mento, Sílfide rea­pa­rece, pega a ali­ança de James e foge para a flo­resta. James, apai­xo­nado, larga tudo pra trás e corre atrás dela. Effie fica deso­lada em lágrimas.

Ato II – A flo­resta encantada.

O Segundo Ato começa com Madge e outras bru­xas dan­çando em volta de um cal­dei­rão onde ingre­di­en­tes estão sendo joga­dos. De den­tro do cal­dei­rão, Madge tira uma echarpe. James e a Sílfide entram, ela mos­tra a ele o seu mundo, con­vi­dando as outras Sílfides a entre­te­rem James dan­çando. Todos eles dan­çam, mas a Sílfide sem­pre evita as apro­xi­ma­ções e os abra­ços de James. Todas voam para outra parte da floresta.

No mesmo momento, os con­vi­da­dos do casa­mento de James com Effie pro­cu­ram por ele na flo­resta. Gurn acha o cha­péu de James, mas Madge diz para ele não con­tar nada a Effie, e o sugere pedir Effie em casa­mento. Ele assim o faz e ela aceita.

James encon­tra Madge, que lhe dá a echarpe dizendo que se ele colocá-la ao redor da Sílfide, as suas asas cai­rão, fazendo com que ela não possa mais voar. Sílfide entra e per­mite que James lhe colo­que o pre­sente, mas quando isso acon­tece, as suas asas caem e ela morre nos bra­ços dele. As outras Sílfides levam o seu corpo sem vida embora.

Madge entra e mos­tra a James o que ele per­deu: ao fundo, pode-se ver as fes­ti­vi­da­des do casa­mento de Effie e Gurn. Ele sucumbe, caindo no chão. O bal­let ter­mina com a Bruxa triun­fando sobre o corpo de James. O mal vence.

Fatos curi­o­sos:

Em 1836, o com­po­si­tor Løvenskiold tinha ape­nas 21 anos. Marie Taglioni tinha 28.

O momento em que Gurn encon­tra o cha­péu de James, e Madge diz para ele pedir Effie em casa­mento, foi intro­du­zido por Bournonville.

O elenco ori­gi­nal na ver­são de Talgioni foi Marie Taglioni e Joseph Mazilier. Na ver­são de Bournonville: Lucile Grahn e o pró­prio August Bournonville.

Em 1892, Marius Petipa remon­tou a ver­são de Taglioni no Teatro Imperial em São Petersburgo, adi­ci­o­nando música de Riccardo Drigo. A vari­a­ção com­posta por Drigo para a bai­la­rina Varvara Nikitina, que inter­pre­tava o papel de Sílfide, foi depois, em 1904, colo­cada por Ana Pavlova no Grand Pas Classique do bal­let Paquita.  É hoje a vari­a­ção dan­çada pela bai­la­rina líder. (Segundo o site em inglês da Wikipedia)

Na ver­são de Johan Kubborg, feita para o Royal Ballet de Londres em 2005, Madge, no final, levanta um pouco a sua saia mos­trando parte de um tutu, suge­rindo que ela mesma era uma Sílfide caída.

O bal­let La Sylphide é cons­tan­te­mente con­fun­dido com o bal­let “Les Sylphides”. Les Sylphides tam­bém é um bal­let blanc, core­o­gra­fado por Mikhail Fokin com música de Frédéric Chopin, orques­trada em 1892 por Alexander Glazunov. A suíte foi inti­tu­lada “Chopiniana Op. 46”, título pelo qual o bal­let “Les Sylphides” tam­bém ficou conhe­cido. Na Rússia, inclu­sive, ele é muito mais conhe­cido como Chopiniana.

 

A ordem do bal­let na par­ti­tura de Severin Løvenskiold:

Ato I

  • Overture (aber­tura)
  • Introdução
  • A entrada de Effie
  • James – Effie – Madge. Cena da lei­tura da sorte
  • James e a Sílfide – Cena da Janela
  • Chegada dos con­vi­da­dos – Pas d’Ecossaise
  • Pas de Deux – Reel
  • Finale

 

Ato II

 

  • Cena da Bruxa
  • James e Sílfide – Cena da Floresta
  • A Sílfide chama pelas outras Sílfides
  • A cena das Sílfides – Divertissement
  • James per­se­guindo a Sílfide
  • Gurn – a bruxa – Effie
  • James e a bruxa – a echarpe
  • Finale
  • Finale: Pas de Deux

 

Leonid Sarafanov e Evgenia Obraztsova. Foto: Natasha Razina

 

Emma-Jane Maguire e Steven Mcrae

 Gudrun Bojesen / Danish National Ballet. Foto: Martin Mydtskov Rønne

 Cena da Janela: Jeremy Ransom e Fiona Tonkin / Australian Ballet, 1989

 Ballo della Regina / La Sylphide – The Royal Ballet

  Natalia Osipova e Viacheslav Lopatin/Bolshoi 2008. Foto: Damir Yusupov

 Evgenia Obraztsova e Leonid Sarafanov

  La Sylphide / The Royal Danish Ballet, 2004. Foto: Alexandra Tomalonis

 Roman Rykine e Erica Cornejo/ Boston Ballet

 

 Versão Pierre Lacotte / Ópera de Paris, 1972:

 

Versão Bournonville / Royal Danish Ballet, 1988:

Ellen Price, 1903 – Variação inicial:

 

Ana Silvério é formada em "Coreografia, Metodologia e Pedagogia da Dança" na cidade de São Petersburgo, Rússia. É coreógrafa, bailarina, professora e pesquisadora da ciência da dança.
14 janeiro 2013

São Paulo Companhia de Dança, essa pérola

Por

Inicio 2013 reno­vado, colo­rido, ins­pi­rado pela minha mag­ní­fica expe­ri­ên­cia com a São Paulo Companhia de Dança durante todo 2012. Sorrio, ao lem­brar já com sau­da­des, do tra­ba­lho lindo, árduo e sério que jun­tos fizemos.

Me senti de novo no Zurich Ballet, pela inten­si­dade, vari­e­dade e riqueza do que se faz ali, um reper­tó­rio que já tes­te­mu­nha a gran­deza dessa jovem com­pa­nhia. A SPCD dança Balanchine, Pederneiras, Cranko, Duato, só pra citar alguns pou­cos. E QUE pou­cos, não..?! Uma com­pa­nhia fun­dada em 2008 e que já tem esse peso só pode mere­cer todas as aten­ções, do público e dos res­pon­sá­veis por mantê-la e esti­mu­lar cada vez mais seu cres­ci­mento

Com a com­pa­nhia em 2010

Aula para os rapazes

Estive com eles pela pri­meira vez em 2010 por uma semana como pro­fes­sor con­vi­dado, o que se tor­nou um caso de amor à pri­meira vista. Foi esse breve período que ori­gi­nou o con­vite das dire­to­ras Iracity Cardoso e Inês Bogéa pra que eu pas­sasse um ano tra­ba­lhando com eles como pro­fes­sor e ensai­a­dor. Assim foi meu 2012 .! Adicionei mais uma ale­gria à minha car­reira, mais um orgu­lho e uma feli­ci­dade, junto aos meus com­pa­nhei­ros de tra­ba­lho da SPCD.
Ali reen­con­trei artis­tas com os quais já havia tra­ba­lhado antes, conheci novos talen­tos e fiz ami­gos. Trocar minha expe­ri­ên­cia, ori­en­tar esse time de bai­la­ri­nos de um talento ímpar foi deleite purís­simo. Me ver em cena atra­vés deles uma emo­ção.

Theme and Variations de George Balanchine

Karina Moreira e Joca Antunes ensaiam BACHIANA de Rodrigo Pederneiras

Além de cida­des como Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre e Recife, via­ja­mos por grande parte do inte­rior de São Paulo, uma dezena de cida­des no mínimo. Na capi­tal fize­mos tem­po­rada em 4 tea­tros e mui­tas esco­las, num exce­lente pro­grama edu­ca­tivo que está ins­pi­rando novos artis­tas e novas pla­téias. Ahh, Holanda e Alemanha abri­ram a turnê 2012, em feve­reiro. É exa­ta­mente disso que pre­cisa um bai­la­rino, “ todo artista tem de ir aonde o povo está ”. Por isso me senti nova­mente na Europa, den­tro de São Paulo! Com eles tive uma das minhas gran­des feli­ci­da­des na vida, que divido aqui com vocês.

Remontei pra com­pa­nhia o Grand Pas de Deux de Don Quichotte, um dos mai­o­res clás­si­cos dan­ça­dos pelo mundo. E numa con­versa com Inês Bogéa (que assu­miu sozi­nha a dire­ção da com­pa­nhia a par­tir de maio) sur­giu a idéia de um pro­grama cha­mado “Dois a Dois”, com minha remon­ta­gem de Don Quichotte e o Grand Pas de Deux de O Quebra-Nozes , suge­rido por ela. Quem mais senão a mes­tra Tatiana Leskova para remon­tar essa linda obra? Convite feito por Inês e aceito por D. Tânia o resto foi his­tó­ria. Trabalhar (mais uma vez) ao lado da mes­tra Leskova foi muito espe­cial pra mim.

Essa remon­ta­gem entrou como parte impor­tante das come­mo­ra­ções dos seus 90 anos, com­ple­ta­dos em 06/12/2012. Muitas entre­vis­tas em jor­nais e pro­gra­mas de TV, lan­ça­mento de livro com fotos de sua bri­lhante car­reira pelo mundo e claro, uma linda festa no dia do ani­ver­sá­rio. Acompanhei isso tudo, mas sei que é no estú­dio, tra­ba­lhando duro com os bai­la­ri­nos que Tatiana Leskova encon­tra vigor e ins­pi­ra­ção. Privilégio todo nosso apren­der com essa lenda viva da Dança. E o “Dois a Dois”, um dos a dos que mos­tra esti­los dife­ren­tes den­tro do bal­let clás­sico, foi sucesso por onde pas­sou! C hapeau pra com­pa­nhia por isso.

Paula Penachio e Norton Fantinel em Don Quichotte

Luiza Lopes e Diego de Paula em O Quebra-Nozes

Eu e Tatiana Leskova em turnê com a companhia


Agora, feliz de volta ao Rio de Janeiro e à minha casa, o Theatro Municipal, chego com a estra­nha e boa sen­sa­ção de que “saí” de casa vol­tando… Prova de que sou um artista, que meu cora­ção sem­pre falará muito alto, por vezes gri­tando mais que a razão, sem­pre em nome da Arte, claro. Prova de que as opor­tu­ni­da­des lin­das que tenho na vida fazem de mim o homem/artista que sou, indis­so­lú­veis um do outro. Isso no ano em que com­pleto 30 anos de car­reira artís­tica pro­fis­si­o­nal (e inin­ter­rupta!) só pode me dei­xar feliz. Como dizem Chico Buarque e Edu Lobo numa can­ção escrita pro pri­meiro espe­tá­culo pro­fis­si­o­nal que fiz na vida, em 1983, “O Grande Circo Místico” , junto ao Ballet Teatro Guaíra:

Ir dei­xando a pele em cada palco
E não olhar pra trás
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus…”

Vida longa à São Paulo Companhia de Dança. Eu os amo e essa casa será sem­pre minha. Juntos sem­pre. Obrigado Iracity Cardoso e Inês Bogéa por esse mag­ní­fico ano. E um cari­nho espe­cial aos artista bai­la­ri­nos, meus com­pa­nhei­ros de tra­ba­lho, os pul­mões dessa com­pa­nhia. A ver­da­deira razão de tudo isso exis­tir. Feliz con­ti­nu­a­ção pra todos em 2013. Axé!

Manoel Francisco atua como maitre de ballet e repetiteur junto ao Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e como convidado de festivais e companhias nacionais e estrangeiras.
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