20 agosto 2014

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Atenção, bai­la­ri­nas!

cartaz ballet v3 As ava­li­a­ções acon­te­cem de segunda a sexta, das 8h as 20h, até Dezembro.

Aproveite para par­ti­ci­par e aju­dar nesta pes­quisa super impor­tante para nós!

 

Mariana é jornalista, adora escrever e acompanha tudo relacionado às artes!
19 agosto 2014

Primeiros passos

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Foto por: KCBalletMedia

Uma tra­je­tó­ria de mil pas­sos começa com o primeiro.

Não sei com quan­tos pas­sos se faz uma bai­la­rina, mas sei que o mais difí­cil deles é o primeiro.

E quanto mais a gente adia, mais difí­cil ele se torna. A minha pai­xão pelo bal­let foi adi­ada pela dita­dura. Aos treze anos, quando ensai­ava o meu pri­meiro passo, fui vio­len­ta­mente des­per­tada por uma rea­li­dade que não dei­xava dúvida: sobre­vi­ver, ape­nas, já era um grande sonho.E sobre­vi­ve­mos. Sobrevivemos à expul­são do meu pai, acu­sado de sub­ver­são pela Marinha. Sobrevivemos ao cho­que de rea­li­dade, que devo­rava com per­ver­si­dade uma alma de bailarina.

Por outro lado, caso não fosse essa a minha his­tó­ria, não esta­ria, hoje, podendo ins­pi­rar pes­soas na busca de suas rea­li­za­ções igual­mente tar­dias. Deus escreve certo por pas­sos tortos.

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Não sei de quan­tos pas­sos será a minha tra­je­tó­ria, mas quero poder olhar para o pas­sado ali­vi­ada por ter dado o pri­meiro, que vai ficando cada vez mais dis­tante, enquanto o esforço do dia-a-dia vai desa­bro­chando uma ines­pe­rada bai­la­rina. E a espe­rança de que vai haver um “depois” nos ajuda a acei­tar um frus­trante “antes”.

Passo a passo, venho me equi­li­brando nesse sonho, que não exis­ti­ria se não fosse o pri­meiro. Olho para este vídeo, gra­vado em janeiro de 2012, e ao invés de sen­tir ver­go­nha pelas defi­ci­ên­cias que hoje enxergo tão cla­ra­mente, sinto é um alí­vio enorme de já ter supe­rado algu­mas delas. E isso é de uma feli­ci­dade imensa, a feli­ci­dade de reco­nhe­cer que, como já aler­tava Fernando Pessoa, tudo vale a pena, quando a alma não se apequena.

Imagem de Amostra do You Tube
Como jornalista, Christine White trabalhou em grandes veículos de comunicação, no Brasil e nos Estados Unidos, até decidir, aos 50 anos, realizar um sonho antigo: tornar-se uma bailarina. E de técnica refinada. Aqui, ela relata o dia-a-dia da transformação que tem vivido desde janeiro de 2012. E com o mesmo apetite pela informação que marcou sua vivência como repórter, ora numa CNN, ora numa Rádio Jornal do Brasil; Christine encontra agora novos caminhos para seu aprendizado "tardio" do ballet, e divide conosco seus achados. Espero q esteja a contento e seja útil para o público. Obrigada pela oportunidade! Bjs,
12 agosto 2014

A bailarina que dança com a alma

Por

Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat! Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat! Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat.

A voz da pro­fes­sora é enér­gica. As alu­nas evo­luem na dia­go­nal da sala, repe­tindo, com­pas­sa­da­mente, a sequên­cia de movi­men­tos. Repetem uma, duas, três, vinte vezes. O can­saço é visí­vel, mas elas não param. Só mesmo quando a música chega ao fim e a pro­fes­sora troca de passo. Baterias e gran­des sal­tos reve­lam que está quase no final. A reve­rence sina­liza que a aula aca­bou. Pelo menos aquela, acabou.

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A turma parece exausta. O suor escorre pelo corpo, marca o chão de tábuas cor­ri­das, deixa no ar uma atmos­fera tensa, de tra­ba­lho duro e sofrido. Pés esfo­la­dos, cale­ja­dos, incha­dos, mús­cu­los dolo­ri­dos, abso­lu­ta­mente esgo­ta­dos por fou­ettès e bat­te­ments inter­mi­ná­veis. Ao con­trá­rio do que se possa ima­gi­nar, entre­tanto, tudo isso sig­ni­fica feli­ci­dade, bem-estar, rea­li­za­ção. A cena — que pode até pare­cer estra­nha para alguns — na ver­dade é mais uma etapa na exaus­tiva rotina de bai­la­ri­nas e bailarinos.

Uma das alu­nas, a mineira Clara Spinelli Bittencourt, 25 anos (em nada mesmo parece dife­rente das outras), mas – acre­di­tem – é defi­ci­ente audi­tiva. Apesar disso, dança e dança lin­da­mente. “Minha mãe era pro­fes­sora de bal­let e tinha uma aca­de­mia na pequena cidade onde morá­va­mos em Além Paraíba. Cresci nesse meio. Assim – aos qua­tro anos — o bal­let che­gou até mim, atra­vés de minha mãe. Já dan­çava den­tro da bar­riga dela, acredito!”

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Aliás, esta é a vida de Clarinha que adora dan­çar em qual­quer tempo ou lugar. “Comecei a fazer aulas cedo e não parei mais. Sinto a música atra­vés da vibra­ção do som, fun­ci­ona mais ou menos como se fosse tele­pa­tia. A con­ta­gem e o ritmo come­çam ao mesmo tempo, sem­pre, claro, com a ajuda dos pro­fes­so­res. Desta forma a ener­gia da música entra no meu corpo pelos pés, pelos bra­ços e pela mente. Fiz tra­ta­mento com uma fono­au­dió­loga para apren­der a lin­gua­gem oral falada. Em fun­ção disso não tenho pro­ble­mas nessa área. Quanto a ouvir as res­tri­ções são mai­o­res já que minha audi­ção é resi­dual. Infelizmente não uso nenhum tipo de apa­re­lho. São todos muito caros e não temos – minha famí­lia e eu – renda sufi­ci­ente para comprá-los.”

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Guardar a sequên­cia dos pas­sos durante as aulas é bem mais fácil para ela. “A grande difi­cul­dade é quando – sem que­rer – a pro­fes­sora fica de cos­tas, e não dá para acom­pa­nhar a lin­gua­gem labial. Assim me perco mesmo e fico sem saber real­mente qual é o passo que vem a seguir. Quando danço, sinto uma feli­ci­dade e um orgu­lho tão grande que me vem a cer­teza de que nada é impos­sí­vel. Basta que­rer. Os obs­tá­cu­los me fazem ten­tar melho­rar mais ainda. Meu cora­ção fica tomado por sen­ti­men­tos de paz, liber­dade e bem estar.”
Ela pode até não ouvir a música, mas con­fessa que a musi­ca­li­dade vem de den­tro para fora do seu corpo. “Preciso da vibra­ção para sen­tir os sons e isso só acon­tece quando a música está bem alta. Já quando salto, perco este con­tato. Aí pre­ciso me guiar pelo ritmo e pela con­ta­gem dos compassos.”

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Clarinha gos­ta­ria muito de ser bai­la­rina pro­fis­si­o­nal, mas diante de tan­tos pro­ble­mas e da falta de incen­tivo do governo– que se recusa a inves­tir em cul­tura — sabe que não pode ir longe demais. Recebe muita ajuda dos ami­gos, reco­nhece a gene­ro­si­dade infi­nita de algu­mas pes­soas, mas admite que para “ado­tar” o bal­let como pro­fis­são pre­ci­sa­ria de muito mais.

Aluna apli­cada do Centro de Artes Madeleine Rosay e de Sahyli Presmanes, faz ques­tão tam­bém de agra­de­cer a pro­fes­sora Claudia Freitas, da Sala Lennie Dale, que acom­pa­nha seus pas­sos desde pequena. “Clara é extre­ma­mente comu­ni­ca­tiva e a lin­gua­gem da dança tornou-se a sua pró­pria forma de se comu­ni­car. Ela é capaz de tra­du­zir e colo­car a alma nos movi­men­tos que excuta com a mesma sen­si­bi­li­dade de quem escuta ou até ainda melhor”, acres­centa Claudia.

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Com a força das pro­fes­so­ras, ambas gran­des incen­ti­va­do­ras de sua car­reira, acre­dita no sonho de um dia — ape­sar dos obs­tá­cu­los – vir a ser uma grande bai­la­rina. “Sou exi­gente comigo. Estou sem­pre me esfor­çando para dar o melhor de mim em tudo que faço. Além disso, é extre­ma­mente pra­ze­roso tra­ba­lhar com o corpo, trans­mi­tindo sen­ti­men­tos e emo­ci­o­nando as pessoas.”

A menina que “ama a vida” tam­bém sonha com um curso de pós-graduação em Arquitetura e, claro, com outro de bal­let, os dois fora do Brasil. E deixa um recado muito espe­cial e extre­ma­mente deli­cado (assim como ela) a todos que aca­len­tam o mesmo ideal. “Não tenha medo. Nunca é tarde para come­çar. Importante mesmo é fazer aquilo que nos dá pra­zer sem­pre com muita dedi­ca­ção. Os sonhos não podem dei­xar de fazer parte da nossa vida. Mas é pre­ciso esforço para que eles virem rea­li­dade. Sonhos sem ati­tu­des ficam ape­nas no pen­sa­mento. É impor­tante que se trans­for­mem em ações.”

Agora, emocione-se tam­bém (e muito) com as pala­vras “encan­ta­das” de Clara Spinelli Bittencourt espe­ci­al­mente dedi­ca­das a Cristina Martinelli, uma de nos­sas mai­o­res artistas.

Cristina Martinelli Cisne Negro Camarim

Lembro tão bem .… eu não tinha refe­rên­cia pro­fis­si­o­nal até conhecê-la. Minha admi­ra­ção por ela é enorme, seja pela supe­ra­ção, pela moti­va­ção, não importa. Bendito o dia em que resolvi colocá-la na minha vida. Aprendi tanto, mas tanto!

Cristina che­gou como uma mani­fes­ta­ção artís­tica, expres­sando sím­bo­los. Como sou defi­ci­ente audi­tiva e ela estava bem do meu lado sem­pre mer­gu­lhada em um belís­simo tra­ba­lho cor­po­ral, a expres­si­vi­dade de seus movi­men­tos, me aju­dou a senti-la, mesmo sem escu­tar a música. E assim – colo­cando para fora o lado mais pro­fundo de suas emo­ções e de seu talento – me fez per­ce­ber que ali come­çava o ver­da­deiro ritmo do coração.

Cristina Martinelli Cisne Branco

Devo demais a ela. E é com pro­funda gra­ti­dão que agra­deço as lágri­mas, os risos e mui­tas outras sen­sa­ções que hoje fazem parte de mim. Por suas mãos fui con­du­zida ao que exis­tia de mais sen­sí­vel neste mundo de magia que é a dança de estar viva. Ajudou-me tam­bém a fazer da sobre­vi­vên­cia um cami­nho para con­vi­ver com minha alma de artista. Fico ima­gi­nando o quanto Cristina Martinelli lutou para ven­cer obs­tá­cu­los, o quanto ser­viu e ainda serve de exem­plo de fibra e deter­mi­na­ção. Minha que­rida te desejo muito, muito sucesso. Obrigada por tudo. Você será sem­pre a minha maior inspiração.”

Claudia Richer é jornalista, dirigiu revistas femininas importantes, foi correspondente internacional e também é atriz formada pela Uni RIo.
6 agosto 2014

Dança em trânsito

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Um dos mais impor­tan­tes even­tos de dança con­tem­po­râ­nea do país começa hoje!

Sim, o Dança em Trânsito chega à sua 10ª edi­ção ainda mais com­pleto, pois reúne mais de uma cen­tena de pro­fis­si­o­nais de 11 paí­ses, com 37 espe­tá­cu­los, 8 ofi­ci­nas e 2 resi­dên­cias por 11 cida­des de 6 esta­dos bra­si­lei­ros. Uau! No Rio, ele acon­tece até dia 31/8.

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Foto Divulgação/Phillipp Duemcke

Criado por Giselle Tápias, o Festival encanta por con­ci­liar dife­ren­tes esti­los e lin­gua­gens de dança e por ter uma polí­tica de ocu­pa­ção do espaço urbano — como bem diz o nome. As apre­sen­ta­ções têm pre­ços popu­la­res e ocor­rem em pal­cos de áreas diver­sas — das cen­trais às desas­sis­ti­das e nobres. Todo mundo vai ter a chance ver algum espe­tá­culo, é só se programar!

A lista de even­tos pode ser aces­sada no site ofi­cial do Dança em Trânsito, e está sepa­rada pelas regiões por onde o Festival vai pas­sar. Confira aqui!

 

Mariana é jornalista, adora escrever e acompanha tudo relacionado às artes!
3 agosto 2014

Ensino do ballet para adultos: Considerações - 11ª parte

Por
Foto por: KCBalletMedia

Olá,

Nesta pos­ta­gem quero falar um pouco da impor­tân­cia das esco­las de dança no Brasil. Sim, as esco­las e aca­de­mias de dança espa­lha­das por esse país afora. Esses locais onde a maior parte de todos nós ini­ciou o con­tato com a dança e que hoje vejo ser mui­tas vezes depreciado.

De uns tem­pos para cá tenho ouvido muito fra­ses do tipo: Ah! Vai fazer uma gra­du­a­ção em dança para dar aula em esco­li­nha de balé? Ou ainda: Também, se for­mou naquela aca­de­mi­a­zi­nha.… ou então: Para quê fazer gra­du­a­ção em dança? Não vai ser­vir para nada mesmo! Enfim, fra­ses pejo­ra­ti­vas que indu­zem ao pen­sa­mento de que as esco­las ou aca­de­mias de dança são locais com pouca qua­li­dade. Que triste! Pois, como disse no pará­grafo ante­rior, a mai­o­ria dos pro­fis­si­o­nais da dança neste país come­çou nes­tes sítios, fora alguns pou­cos pri­vi­le­gi­a­dos que pude­ram ini­ciar seus estu­dos em esco­las oficiais.

Holt Ballet Conservatory

Eu, par­ti­cu­lar­mente, me lem­bro da aca­de­mia que estu­dei com ale­gria e sau­da­des de um tempo gos­toso, no qual, além de ter apren­dido a dan­çar e ensi­nar, fiz gran­des e sóli­das ami­za­des. Acredito que a maior parte delas ainda são assim. Se não fosse bom fazer parte de uma aca­de­mia ou escola de dança, não tería­mos inú­me­ros fes­ti­vais de dança cheios de alu­nos inte­res­sa­dos, orga­ni­za­dos e cheios de ener­gia. Como se diz, bombando!

Portanto, não con­sigo enten­der por­que esses con­cei­tos pejo­ra­ti­vos sobre as esco­las de dança estão sur­gindo. Guardando as devi­das pro­por­ções, todas as esco­las de dança, penso eu, pre­ten­dem ensi­nar da melhor forma pos­sí­vel den­tro das pos­si­bi­li­da­des de cada uma. Para meus alu­nos de gra­du­a­ção, ou alu­nos de esco­las ou aca­de­mias onde tra­ba­lho, insisto em valo­ri­zar estes locais. Fico feliz quando pro­fes­so­res e donos de esco­las entram para a gra­du­a­ção em dança, pois vão poder ampliar imen­sa­mente seus conhecimentos.

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Sendo bem espe­cí­fica em rela­ção ao pro­fes­sor de dança, nosso uni­verso tem uma demanda dife­ren­ci­ada da mai­o­ria das outras pro­fis­sões. Começamos muito cedo a tra­ba­lhar seri­a­mente como artis­tas e nos tor­na­mos mui­tas vezes pro­fes­so­res antes mesmo de ter­mi­nar­mos qual­quer gra­du­a­ção. Ou seja, somos pro­fis­si­o­nais e alu­nos ao mesmo tempo. E como ainda não existe a regu­la­men­ta­ção de que seja­mos gra­du­a­dos em dança para leci­o­nar­mos em esco­las livres, mui­tas vezes os pro­fes­so­res dão aulas ape­nas para sobre­vi­ver e não pro­cu­ram apren­der téc­ni­cas de ensino, o que real­mente não é bom. São pro­ble­mas que temos e que pre­ci­sa­mos reco­nhe­cer para poder melhorar.

O mundo está cada vez mais glo­ba­li­zado e espe­ci­a­li­zado. A dança acom­pa­nha a soci­e­dade em que vive. Precisamos somar e não divi­dir. Que nos­sas esco­las e aca­de­mias de dança pos­sam cres­cer e melho­rar a cada dia e que pos­sa­mos aju­dar a for­ta­le­cer esses locais, pois afi­nal foram neles que nós, pro­fis­si­o­nais de dança, demos os pri­mei­ros pas­sos de quem somos hoje. Longa vida às esco­las e aca­de­mias de dança!

Até a pró­xima, Bjs, Helô

 

 

Heloisa Almeida pertenceu ao Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ao Corpo de Baile do Teatro Guaíra em Curitiba. Formou-se em fisioterapia e atualmente é professora do curso de dança da UniverCidade e pertence ao corpo de professores do Lyceu Escola de Danças.
28 julho 2014

Quando a animação e a dança se encontram...

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Há pouco mais de um ano, assisti a uma ani­ma­ção de um pas de deux no Vimeo que me dei­xou com os olhos cheios d’água e um sor­riso no rosto.

Essa ani­ma­ção se tor­nou bem conhe­cida na inter­net e che­gou a ser ins­pi­ra­ção da nota de aber­tura da novela Amor à Vida, da rede Globo. Para quem ainda não lem­brou ou sacou do que estou falando, este vídeo é o curta Thought Of You do artista Ryan Woodward.

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Não tem como não se apai­xo­nar por esta ani­ma­ção 2d de traço sim­ples, como se fosse ainda um ras­cu­nho, movi­men­tado por ges­tos sua­ves de balé e dança con­tem­po­râ­nea. Até a paleta de cores acom­pa­nha o traço do dese­nho e a ani­ma­ção, em cores sua­ves e cruas.

Ryan não espe­rava a grande reper­cus­são que seu dese­nho alcan­çou. O desig­ner sem­pre tra­ba­lhou em pro­du­ções impor­tan­tes da indús­tria da ani­ma­ção, como Walt Diney, Marvel e Dreamworks, mas há 15 anos ela­bora um pro­jeto cha­mado Conte Animated, onde apre­senta ao público sua pre­fe­rên­cia artís­tica à ani­ma­ção tra­di­ci­o­nal atra­vés de pro­ces­sos experimentais.

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O pro­jeto visa sem­pre com­bi­nar qua­tro ele­men­tos artís­ti­cos em cada obra:

1. O dese­nho da figura humana a fim de explo­rar grande vari­e­dade de forma, traço e concepção;

2. A ani­ma­ção 2d;

3. A dança contemporânea;

4. O exer­cí­cio de pro­du­ções expe­ri­men­tais como fer­ra­menta de cres­ci­mento artístico.

Em seu site, Ryan explica que, ape­sar de não ser bai­la­rino, apre­cia o talento e a dedi­ca­ção que há em uma peça core­o­grá­fica. Ele diz que a dança é uma forma encan­ta­dora do movi­mento humano que é capaz de comu­ni­car mais emo­ção que qual­quer outra forma de diá­logo (e nós con­cor­da­mos com você, Ryan!).

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Ele tam­bém revela que o Thought Of You nas­ceu a par­tir de seu grande desejo em unir suas pai­xões em uma só obra: ilus­tra­ção, ani­ma­ção 2d, EFX Animation e dança con­tem­po­râ­nea, refor­çando as carac­te­rís­ti­cas do pro­jeto para­lelo. Para a ela­bo­ra­ção da ani­ma­ção, Ryan selou par­ce­ria com a coreó­grafa Kori Wakamatsu, que criou a core­o­gra­fia e diri­giu os bai­la­ri­nos e os ensaios. A segunda etapa foi a fil­ma­gem da core­o­gra­fia, matéria-prima para o tra­ba­lho de ilus­tra­ção e ani­ma­ção de Ryan. Há um docu­men­tá­rio sobre o pro­jeto Thought Of You, onde Ryan fala um pouco de sua car­reira, famí­lia, o que desen­ca­deou a ideia da famosa ani­ma­ção e o pro­cesso de montagem/elaboração.

Voltando para os deta­lhes da ani­ma­ção, é pos­sí­vel notar como somente a com­bi­na­ção da core­o­gra­fia e da dança, já nos passa a his­tó­ria de uma casal que sofre pela sepa­ra­ção, atra­vés de pas­sos que os une e que os sepa­ram, além da cons­tante apa­ri­ção e desa­pa­re­ci­mento da garota. Não fica claro como eles se sepa­ra­ram, mas con­se­gui­mos sen­tir a intensa liga­ção que ainda existe entre o casal e a sau­dade que um sente pelo outro.

Elementos como a lua, a água e as penas impri­mem um uni­verso lúdico na trans­mis­são da emo­ção, como a vez em que a garota some por se trans­for­mar em água, sendo impos­sí­vel do rapaz segurá-la, por seu estado líquido, escor­rendo pelos dedos do amado.

Um deta­lhe sutil, mas não menos impor­tante, é a cor do traço do dese­nho da garota, que durante quase todo o vídeo é de cor branca, em con­traste ao do rapaz, de cor preta. A dua­li­dade, branca e preta, pode ser inter­pre­tada como a com­ple­men­ta­ri­e­dade do casal, entre­tanto, ao final da ani­ma­ção, os tra­ços do dese­nho da garota assu­mem a cor preta, em sin­cro­nia ao último movi­mento da dança, em que ele sai de cena e a deixa.

A par­tir dessa cena, então, a cor branca pode ser inter­pre­tada como um ele­mento de repre­sen­ta­ção do campo do sonho, do pen­sa­mento, como ela vivia na mente dele, e que a cor preta repre­senta a rea­li­dade, aquele único momento da dança que retrata algo que real­mente acon­te­ceu. O mais legal desse vídeo, de fato, é a abor­da­gem dos sen­ti­men­tos e da esté­tica de dese­nho cru, que per­mite múl­ti­plas inter­pre­ta­ções. As que escrevi aqui são ape­nas algu­mas pou­cas que são pos­sí­veis de serem extraídas.

Nada mais justo que con­cluir o texto com o vídeo na ínte­gra. Se deli­ciem com essa ani­ma­ção sen­sí­vel e emocionante:

Até a próxima!

Tainá Corongiu é publicitária, baiana, ex-bailarina e eterna apaixonada pela dança.
22 julho 2014

Não dançar para poder dançar!

Por

Dizem que “o ócio é o melhor negó­cio” e, em cer­tos momen­tos da vida, isso não deixa de ser verdade.

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As pes­soas ima­gi­nam que todas as bai­la­ri­nas levam uma vida gla­mou­rosa, mas não é bem assim. Em cer­tas épocas do ano, che­ga­mos a um ponto que nos­sas per­nas que­rem se des­co­nec­tar do corpo e sair andando por aí sozi­nhas. Nossos bra­ços já não que­rem mais nada com nada e nosso corpo…

Ah, o nosso corpo… Esse chora, grita, esper­neia, não obe­dece, faz de tudo que pode para nos mos­trar que está esgo­tado, que quer e pre­cisa des­can­sar. Então con­ti­nu­a­mos a tra­ba­lhar, for­çando o nosso corpo a fazer coi­sas que já não con­se­guem ser fei­tas com a natu­ra­li­dade de antes. E aí sur­gem as con­tra­tu­ras, ten­di­ni­tes e dores mus­cu­la­res, dessa vez, mais for­tes que o nor­mal, mas olha que beleza, nem tudo está perdido!

As férias—finalmente—chegaram!!! Galera, esse é o nosso momento de des­canso!!! Nosso corpo pre­cisa de pelo menos duas sema­nas de tré­gua, então nada de fazer cur­sos de férias que nem lou­cos! Vamos via­jar, ver fil­mes, vamos a la playa!

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Dias depois, a sau­dade da dança já começa a aper­tar, e nós já nos pre­pa­ra­mos para vol­tar com tudo! É isso aí, bai­la­ri­nos, apro­vei­tem as férias enquanto podem, por­que o col­lant já está doido para sair da gaveta!!

Beijo!

Sofia Araldi é natural do Rio de Janeiro, estudante da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, apaixonada por dança e filmes antigos.
14 julho 2014

Como manter a ordem nas aulas de balé infantil

Por

Só quem tra­ba­lha como pro­fes­sor de cri­an­ças, seja em qual­quer área, sabe o quanto é difí­cil mantê-los em ordem.

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Quando fala­mos em bal­let isso com­plica um pouco por­que a aula pre­cisa ser lúdica e esse ar de brin­ca­deira faz com que, mui­tas vezes, as cri­an­ças não con­si­gam enten­der que não esta­mos sem­pre brin­cando. Aí che­gam os momen­tos em que você pre­cisa de ordem, pre­cisa que elas parem, se orga­ni­zem de algu­mas for­mas e aí está o grande desa­fio! Discipliná-las sem per­der a paci­ên­cia e sem dei­xar a aula ficar chata.

Há alguns anos dando aula come­cei a ter algu­mas estra­té­gias para bus­car a ordem delas, o silên­cio, mantê-las no lugar e acre­dito que são boas dicas, vale a pena tentar.

BRINCADEIRA DO SILÊNCIO

Essa é antiga! Eu brin­cava quando era cri­ança na escola e acre­di­tem dá certo!

Ninguém quer per­der a brin­ca­deira e quem fala perde.

ESTÁTUA

Essa tam­bém é muito velha e fun­ci­ona. Você pode inclu­sive fazer está­tuas dire­ci­o­na­das como: está­tua na pri­meira posi­ção, está­tua na fila da dia­go­nal, está­tua com as duas mãos na barra e assim por diante.

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RODÍZIO DAS FILAS

Elas bri­gam por­que que­rem ser as pri­mei­ras, então eu faço rodí­zio delas. A pri­meira da fila no pró­ximo exer­cí­cio será a última, sem­pre. Isso acon­tece com todas da fila, logo cada uma será a pri­meira em cada exer­cí­cio e aca­bam as brigas.

MARCAÇÃO DE LUGARES

Utilize E.V.A para mar­car os luga­res de cada uma. Dá para fazer no for­mato de flor, cora­ção etc e cada uma fica em cima do seu recorte para elas man­te­rem os lugares.

Assim fica mais fácil ter­mos uma boa aula para todos!

Dryelle Almeida é publicitária, bailarina e idealizadora do Blog Mundo Bailarinístico .
10 julho 2014

Sapatilhas para eles

Por

A moda vira e mexe se ins­pira no balé para criar.

E pode­mos dizer que foi esse o caso do esti­lista belga Dries Van Noten na última semana de moda Masculina, des­fi­lada no fim de junho em Paris.

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Inspirado em nomes como Nureyev, Baryshnikov e Nijinsky, o desig­ner criou um sapato para os homens com uma fita presa nos pés, deta­lhe que remete às sapa­ti­lhas de balé. Sobre a esco­lha, Dries falou: “Eu tive o sufi­ci­ente de rock e uma ati­tude cool. Era hora de algo com­ple­ta­mente dife­rente. Eu que­ria um homem sensual.”

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Para isso, o esti­lista fez uma extensa pes­quisa pelos tra­jes típi­cos de balé, estu­dou a ana­to­mia dos cor­pos em movi­mento. Assim, além do sapato, a ins­pi­ra­ção ren­deu jaque­tas bor­da­das, shorts e cal­ças fluidos.

Imagem de Amostra do You Tube

A tri­lha sonora esco­lhida foi feita pelos com­po­si­to­res bel­gas Thierry De Mey e Peter Vermeersch para peça Rosas Danst Rosas, da coreó­grafa belga Anne Teresa de Keersmaeker.

Bonito de ser ver!

Mariana é jornalista, adora escrever e acompanha tudo relacionado às artes!
3 julho 2014

PAS DE DEUX (parte II)

Por

Da supre­ma­cia da bai­la­rina ao GRAND PAS DE DEUX.

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Altynai Asylmuratova e Faroukh Ruzimatov no Grand Pas de deux de “Paquita”.

O pro­cesso que levou o bal­let do Período Romântico a adqui­rir as novas carac­te­rís­ti­cas que fariam dele o “Ballet Clássico” foi con­di­ci­o­nado por várias cir­cuns­tân­cias entre elas:

- O desen­vol­vi­mento de novos tecidos;

- A implan­ta­ção de figu­ri­nos mais leves e, pos­te­ri­or­mente mais cur­tos (tutu clás­sico), que per­mi­ti­ram uma gama maior de movimentos;

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Uma réplica de um tutu român­tico, como o que teria sido usado por Taglioni.

- A con­so­li­da­ção e o enri­que­ci­mento da téc­nica de ponta;

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Réplica dos sapa­tos de ponta nos pri­mór­dios de seu desenvolvimento.

- E, espe­ci­al­mente, as alte­ra­ções na soci­e­dade e o ingresso de um novo público que pas­sa­ria a “con­su­mir” os espe­tá­cu­los de ballet.

Embora tenha nos dei­xado jóias como “La Sylphide” e “Gisele”, o Ballet no séc. XIX (Ballet Romântico) expe­ri­men­tou, a exem­plo de todos os perío­dos em todas as for­mas de arte, um esgo­ta­mento de seus temas e uma satu­ra­ção em alguns aspec­tos de sua lin­gua­gem, ou melhor da “fór­mula Romântica”, que se cris­ta­li­zou e não con­se­guiu acom­pa­nhar o gosto desta soci­e­dade recém-emergente dei­xando, aos pou­cos, de des­per­tar neste público que sur­gia, o inte­resse por seus temas e espetáculos.

A soci­e­dade da época estava em trans­for­ma­ção, com cres­cente avanço da cha­mada “bur­gue­sia”, classe que pas­sava a con­tro­lar tam­bém bens e rique­zas e a con­su­mir arte, fazendo-o porém, de acordo com seus padrões e gos­tos, os quais eram bem dife­ren­tes dos da monar­quia (que cres­cia exposta à mani­fes­ta­ções artís­ti­cas ela­bo­ra­das, mais pro­fun­das e com­ple­xas, base­a­das em mitos e em tex­tos com con­teúdo moral).

A arte con­cei­tual, fiel à repre­sen­ta­ção de um tema, com o obje­tivo de difun­dir valo­res e pro­vo­car uma refle­xão, estava com os dias contados.

Por esta razão, a fim de sobre­vi­ver como mani­fes­ta­ção artís­tica, o bal­let pre­ci­sou ajustar-se a esta nova demanda do mer­cado, deixando-se diluir, no que dizia res­peito aos temas com­ple­xos e refle­xi­vos e fortalecer-se, no que dizia res­peito à téc­nica, que deve­ria ser cada vez mais acro­bá­tica, cha­mando a aten­ção para mano­bras como sal­tos, giros e por­tés (car­re­ga­men­tos) desafiadores.

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 “A Filha do Faraó” – 1º grande bal­let cri­ado por Marius Petipa, numa mon­ta­gem do Ballet Bolshoi (recri­ado por Pierre Lacotte)

Fazia-se neces­sá­ria uma nova etapa no desen­vol­vi­mento da lin­gua­gem e da téc­nica do bal­let, a qual deve­ria torná-lo mais “espetacular”.

Os bal­lets de agora deve­riam pri­mar por aspec­tos mais “popu­la­res”, como o charme, o bri­lhan­tismo (téc­nico), a ele­gân­cia e a per­so­na­li­dade mesmo que, ao aten­der estas exi­gên­cias, a ação, a coe­rên­cia dra­má­tica, e a repre­sen­ta­ção fiel do libreto (his­tó­ria) se per­des­sem.  Resumindo:“O público que­ria bal­lets mais fáceis.”

A Supremacia da Bailarina:

A “Supremacia da Bailarina” recém-conquistada, per­ma­ne­ce­ria mais forte do que nunca!

Estabelecido durante o período Romântico, o endeu­sa­mento da bai­la­rina estava ligado ao papel que esta desem­pe­nhava nos bal­lets da época, onde incor­po­rava seres fan­tás­ti­cos, ima­te­ri­ais e ina­tin­gí­veis, cuja con­quista era fas­ci­nante e desafiadora.

Estes atri­bu­tos aca­ba­vam sendo “trans­fe­ri­dos” para as bai­la­ri­nas, que no enten­der do público, pas­sa­vam a representá-los tam­bém fora dos palcos.

Elas foram trans­for­ma­das em estre­las. Seus modos de ves­tir e de pen­tear lan­ça­vam moda e eram copi­a­dos. Marie Taglioni, por exem­plo, foi con­si­de­rada um “modelo” den­tro e fora dos pal­cos, influ­en­ci­ando toda uma geração.

imagem_6 Marie Taglioni, bai­la­rina para a qual foi cri­ado o papel da Sílfide, em “La Sylphide“.

A bai­la­rina rei­nava den­tro e fora dos pal­cos. Ao bai­la­rino cabia o segundo plano dis­tante, cum­prindo ape­nas o papel de apoio, de “ele­va­dor” e de “acompanhante”.

Esta depre­ci­a­ção do bai­la­rino, que acar­reta uma defa­sa­gem no desen­vol­vi­mento da téc­nica de dança mas­cu­lina, somente será ques­ti­o­nada e, de certa forma, cor­ri­gida (com­pen­sada) no Ballet Raymonda cri­ado em 1898 por Marius Petipa, que incluiu, pela 1ª vez, uma vari­a­ção para qua­tro pri­mei­ros bai­la­ri­nos (LIFAR, 1954, p.156).

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O bri­lhante coreó­grafo fran­cês, radi­cado na Rússia, MARIUS PETIPA.

Sobre este aspecto do favo­re­ci­mento da bai­la­rina, com total detri­mento do bai­la­rino, Serge Lifar comenta em seu History of Russian Ballet:
“Sob estas cir­cuns­tân­cias, a dança mas­cu­lina e o drama core­o­grá­fico eram vis­tos como can­sa­ti­vos e enfa­do­nhos. Ao coreó­grafo era reque­rido que aten­desse a um único requi­sito: Contemplar o gosto da bailarina.

Os bal­lets tinham que ser fei­tos sob medida e à “estrela” era asse­gu­rado o direito de pedir que tre­chos da core­o­gra­fia que não a favo­re­ces­sem fos­sem supri­mi­dos ou subs­ti­tuí­dos por outros “empres­ta­dos” de bal­lets dan­ça­dos anteriormente.”

Sobre os part­ners, con­ti­nua Lifar no mesmo tre­cho, “os Bailarinos eram tole­ra­dos con­tanto que aten­des­sem à neces­si­dade da bai­la­rina no papel de apoio e guia. Eram meros car­re­ga­do­res e deve­riam ape­nas des­lo­car as bai­la­ri­nas sem demons­trar esforço, con­tri­buindo para enfa­ti­zar sua graça eté­rea. Nem mesmo em suas vari­a­ções os bai­la­ri­nos podiam demons­trar habi­li­da­des téc­ni­cas par­ti­cu­la­res.” (LIFAR.1954, p. 102)

Considerando este cená­rio, não sur­pre­ende o fato de Petipa ter rece­bido, ao tomar posse como coreó­grafo chefe a reco­men­da­ção de fazer “tudo o que fosse neces­sá­rio para agra­dar à bai­la­rina”.

Outra “reco­men­da­ção” foi para tor­nar os bal­lets mais acro­bá­ti­cos, con­cen­trando esfor­ços nas demons­tra­ções da téc­nica, com sal­tos, equi­lí­brios nas pon­tas e giros desafiadores.

Coube a ele encon­trar a “fór­mula” para um “novo bal­let” que vol­ta­ria a agra­dar ao público.O “pulo do gato” rece­beu o nome de “diver­tis­se­ments”- peque­nas core­o­gra­fias nas quais a pri­o­ri­dade era a exi­bi­ção téc­nica, sem (ou com muito pouca) rele­vân­cia para a repre­sen­ta­ção da narrativa.

O dife­ren­cial de Petipa:

Petipa conhe­cia pro­fun­da­mente os bai­la­ri­nos para quem cri­ava e, para eles, core­o­gra­fava solos (vari­a­ções) e due­tos (pas de deux) que demons­tra­vam, com exa­ti­dão, as qua­li­da­des par­ti­cu­la­res de cada um.

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 Marianella Nuñez ensai­ando a ver­são de Carlos Acosta de “Don Quixote” para o Royal Ballet de Londres.

Don Quixote foi core­o­gra­fado ori­gi­nal­mente por Petipa. “A Bela Adormecida”, “Don Quixote” e “O Quebra Nozes” são exem­plos de bal­lets nos quais, por meio des­tes diver­tis­se­ments, um grande número de bai­la­ri­nos tem opor­tu­ni­dade de demons­trar suas habi­li­da­des téc­ni­cas e artís­ti­cas, em solos reple­tos de vir­tu­o­ses e desafios.

American Ballet Theatre

Pas de deux do 1° ato de “Don Quixote“, numa mon­ta­gem do American Ballet Theatre.

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A bra­si­leira Roberta Marquez e Valeri Hristov na ver­são do “Quebra-Nozes”, ence­nada pelo Royal Ballet de Londres. Foto: DeeConway / ROH ©

Esta etapa da evo­lu­ção da lin­gua­gem da dança foi con­sequên­cia: do sur­gi­mento de novos pas­sos e arranjos; do ama­du­re­ci­mento do tra­ba­lho nas pon­tas e da alte­ra­ção dos figurinos, que agora tinham com saias mais cur­ti­nhas (os tutus clás­si­cos).

Este con­junto de avan­ços revi­ta­li­zou o bal­let e ajudou-o a con­quis­tar a pla­teia emer­gente. É impor­tante que se diga, porém, que estes novos apa­ra­tos téc­ni­cos pouco con­tri­buí­ram para a arte da dança como um todo, tendo dei­xado de lado a rela­ção entre o con­teúdo exi­bido pela téc­nica e a ence­na­ção pre­cisa do drama.

O estilo de Petipa aca­bou por caracterizar-se da seguinte forma: Um con­junto de diver­tis­se­ments, cada vez mais ricos e apu­ra­dos tecnicamente, que dis­pen­sa­vam, quase com­ple­ta­mente, a mímica para expres­sar o enredo.

Em vários bal­lets de Petipa, estes enre­dos cons­ti­tuí­ram ape­nas uma “linha mes­tra” em torno da qual as dan­ças foram ali­nha­va­das. Não havendo pre­o­cu­pa­ção com o apro­fun­da­mento do tema por meio do ballet.

Esta carac­te­rís­tica, no entanto, não foi vista, pelo público da época, como uma falha e não afe­tou nem o sucesso, nem a grande acei­ta­ção por parte do público, dos bal­lets deste grande mestre.

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O tutu “clássico” com a saia cur­ti­nha per­mi­tiu à bai­la­rina a rea­li­za­ção de uma gama muito maios de movi­men­tos, tanto em solos, quanto nos Pas de Deux.
A apre­sen­ta­ção da bai­la­rina para o Pas de Deux final dos bal­lets ves­tindo um tutu clás­sico tam­bém era uma cons­tante na “FÓRMULA DE PETIPA”.(FARO, 1986)

Esta fór­mula de Petipa, cen­trada pri­o­ri­ta­ri­a­mente na dança, fez com que o bal­let se desen­vol­vesse numa escala sem pre­ce­den­tes, no que diz res­peito à cri­a­ção de novos pas­sos e ao aumento da vir­tu­o­si­dade técnica.

Com rela­ção ao desen­vol­vi­mento da téc­nica na era de Petipa, Antônio José Faro comenta, em “Pequena História da Dança” (p. 75):

… E foi exa­ta­mente atra­vés do conhe­ci­mento téc­nico que ele nos legou obras que até hoje são o grande pri­vi­lé­gio das gran­des estre­las da dança.

Isto não quer dizer que ele tenha trans­for­mado a dança em acro­ba­cia (…) mas é pos­sí­vel que sou­besse que exis­tem na dança, movi­men­tos per­ten­cen­tes, de certo modo, ao reino da acro­ba­cia e que, como todas as artes rou­bam uma das outras, não have­ria mal algum em incor­po­rar à téc­nica do bal­let efei­tos que até então pode­riam ser clas­si­fi­ca­dos como circenses.

O equi­lí­brio da bai­la­rina nas pon­tas dos pés ou a exe­cu­ção dos 32 fou­et­tés são alguns exem­plos de coi­sas que hoje con­si­de­ra­mos abso­lu­ta­mente nor­mais num palco, mas que, na época, foram clas­si­fi­ca­das como TRUQUES DE CIRCO!”

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 Grand pas de deux de “A Bela Adormecida”, de Petipa, com música de Tchaikovsky.

O pequeno vídeo abaixo trata da cri­a­ção dos 32 fou­et­tes, por “Pierina Legnani”, uma mano­bra téc­nica que pas­sou a ser pra­ti­ca­mente obri­ga­tó­ria nas “codas” dos “Grand pas de deux”.

Imagem de Amostra do You Tube

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Pierina Legnani, na vari­a­ção do 1° ato de “Raymonda” de Marius Petipa.

Nesta nova forma de “con­tar as his­tó­rias”, na qual as “falas eram dan­ça­das” e equi­va­len­tes: às falas indi­vi­du­ais, nas vari­a­ções; aos diá­lo­gos, nos pas de deux e aos acon­te­ci­men­tos per­ti­nen­tes a todos, nas dan­ças de grupo, a arte do Pas de Deux tam­bém foi ele­vada a novos pata­ma­res e ganhou a tão céle­bre forma:

Entrada+ ada­gio + vari­a­ção mas­cu­lina + vari­a­ção femi­nina + coda = GRAND PAS DE DEUX

Os pas­sos recém-criados, combinados de forma genial, em suas cri­a­ções core­o­grá­fi­cas, aumen­ta­ram enor­me­mente o impacto emo­ci­o­nal de seus bal­lets perante os espec­ta­do­res, des­per­tando rea­ções de entu­si­asmo e admi­ra­ção e aju­dando a man­ter viva e fas­ci­nante, uma moda­li­dade que até pouco tempo (no fim do roman­tismo) pare­cia não ter mais nada a oferecer.

Grand Pas de Deux de“La Bayadère” com Marianela Nunez e Carlos Acosta. Remontagem de Natalia Makarova para o Royal Ballet, de Londres.
Imagem de Amostra do You Tube

Como acon­tece com toda fór­mula que se cristaliza, a de Petipa per­deu, aos pou­cos, o seu encanto e, não con­se­guindo se rein­ven­tar ou se atu­a­li­zar, caiu em declí­nio, a exem­plo do que já tinha acon­te­cido com a fór­mula ante­rior (a do Romantismo).

Este declí­nio criou con­di­ções para o sur­gi­mento de uma nova etapa no desen­vol­vi­mento da arte da dança. Um dos gran­des res­pon­sá­veis por este novo capí­tulo será MICHEL FOKINE, um grande refor­ma­dor da dança, que fez parte da Companhia de Diaghilev.

Mas este será assunto para outro post, com­bi­nado? Aguarde!

Tânia Kury é publicitária, com especialização em comunicação e semiótica. Sempre de olho no que acontece no mundo do ballet, divide seus achados no blog Passo a Passo.
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