A Dança é a linguagem do corpo e o idioma da alma

Em meados de outubro de 2015, recebi um carinhoso convite para escrever no blog da Ana Botafogo. Fiquei muito contente, porque além de ser uma excelente bailarina, também é uma pessoa muito querida e nem consigo imaginar o que seria da minha geração se não crescêssemos vendo a Ana pelos palcos brasileiros.

O convite partiu de outra pessoa, também muito estimada, que é a Lu Fernandes, da Loja Ana Botafogo, na ocasião em que fui procura-la para a confecção da malha do figurino para o evento de lançamento do meu livro “Victória, uma saga italiana no interior do Rio Grande”. Este livro foi minha primeira obra literária, sou bailarina e atriz, e minha formação primeira, que vem desde os quatro anos de idade, é a dança.

Cresci com ela… A Dança…

Fui criança, pré-adolescente, adolescente, adulta com ela, nunca a abandonei e nunca me abandonou, mesmo nos momentos de questionamentos, essa arte dignificante sempre me ajudou a superar limitações e vencer dificuldades. E com certeza, estará comigo até o fim dos meus dias…

A dança me proporcionou ensinamentos que até hoje norteiam minhas escolhas de vida, e faço questão de citar a dedicação e o primor. Tenho um carinho muito especial por esta arte, que é capaz de ensinar o que as palavras não conseguem expressar, que é capaz de educar, resgatar, integrar, conscientizar, fortalecer, dignificar… Enfim… São muitas e inúmeras as qualidades da arte de dançar; de expressar-se e comunicar-se através do corpo, do movimento…

Tudo o que aprendemos com essa arte maravilhosa, permanece registrado, inscrito no corpo, no histórico de vida. E dentre tantos benéficos ensinamentos, além do conhecimento da própria estrutura corporal e suas possibilidades, cito o autoconhecimento, a superação de desafios, o desenvolvimento da criatividade, a expressão, a comunicação, a percepção da dignidade, e especialmente o aprimoramento e a disciplina.

Acredito que Dançar é muito mais que uma forma de se mover ou exercitar. Dançar é um modo de ver e se relacionar com o mundo. Quem dança vê o mundo através dos olhos de um corpo que dança! E este é, sem dúvida, o maior aprendizado desta bela e profunda arte. Então…

Retomando o tema do convite para escrever no blog, preparei este modesto artigo em agradecimento ao carinho. Boa dança das palavras para nós!

A Dança é a linguagem do corpo e o idioma da alma!

Muito antes de conhecer as palavras, o ser humano primitivo já sabia dançar. Seus corpos moviam-se em expressão da coletividade, evocando as forças da natureza e louvando o que lhes era inexplicável. A dança do primitivo humano convocava o poder da tribo, dos ancestrais, da terra, do céu e das águas, fazia parte da preparação dos guerreiros, das celebrações às colheitas, do ensinamento das crianças, da súplica na tentativa de aplacar a fúria da morte e das guerras…

A dança participa da vida desde a origem da evolução humana. Expressa, através do corpo, o que não pode ser compreendido somente com as palavras. O movimento é a amplitude da subjetividade, no instante exato em que o invisível torna-se sensorialmente compreensível. É a expressão do corpo ecoando conteúdos que extrapolam os limites da fala. Expressa a cultura dos povos, retrata os momentos políticos, sociais, históricos… Proporciona o diálogo entre o indivíduo e a coletividade, estabelece conexões, trocas, percepções, compreensões… Proporciona saúde, conhecimento, consciência, questionamento, reflexões, catarses… Sensibiliza, entusiasma, desperta a alegria e a vitalidade. Vivifica! Vivo Fica!

É capaz de dar voz a toda uma nação. Um povo que não dança é um povo silenciado em sua expressão.

Felizes aqueles que dançam e cultivam a arte de comunicar-se além das palavras.

“A Dança proporciona respiro à existência!”

Autoria: Ana Guasque – é bailarina e atriz formada pela Escola de Arte Dramática da USP, em São Paulo. Participou das novelas Boogie Oogie, Sete Vidas e Totalmente Demais na Rede Globo de Televisão. Duas vezes indicada ao Prêmio Açorianos de Melhor Bailarina no RS; foi bailarina da Ânima Cia de Dança, de Eva Schul. Seus mais recentes espetáculos foram “Sobre Ancas”, com direção de Cláudia Palma, e “Valsa em Pedaços”, de própria direção, ambos realizados em São Paulo. Em 2015, Ana Lançou o livro “Victória, uma saga italiana no interior do Rio Grande”, sua primeira obra literária, com a parceria da atriz Rosi Campos. Ana reside no Rio de Janeiro, onde se dedica à carreira de atriz e bailarina; também faz parte de um grupo de cinema coordenado pelo ator Paulo José. Dedica a vida à arte com amor e entrega, e agora também escreverá para o blog da Ana Botafogo.


Quem tem medo do espelho?

Quem tem medo do espelho?
O pequeno (mas muito sincero) texto de hoje partiu de uma mensagem que recebi recentemente, que me estimulou a falar de um assunto que muito nos assombra: a autoimagem.
Início com um trecho da mensagem:
“Você entra na sala de aula já se sentindo horrível. O espelho está lá, olhando para você.
Desistir de dançar parece uma alternativa plausível. Mas eu não vivo sem dançar! Mas tudo me faz sentir tão mau. O collant não cabe mais, você está mais velho e menos flexível. ”

Quem nunca passou por essa situação que atire a primeira sapatilha, as histórias de inseguranças em relação ao próprio corpo só aumentam e cada vez mais não conseguimos lidar com as pressões.
Isso porque não temos o físico perfeito, nem a técnica perfeita. Mas, quem tem?
Cabe a cada bailarino ou praticante de dança fazer um trabalho diário de autoafirmação e de persistência. A questão não é viver infeliz, mas entender que mudanças partem de estímulos internos e não externos. Se algo não está bom e você deseja mudar, mude, tenha iniciativa. Mas não deixe que pressões mal direcionadas afetem sua autoestima. Valorize quem você é. Bailarinos são sobretudo artistas, que vivem de diferenças.
Imagine que chato seria se todos os quadros fossem iguais, se todas as músicas tivessem o mesmo ritmo. Fuja do medo, da cobrança e da autocrítica excessiva.
O espelho reflete todos os julgamentos que você tem sobre você mesmo, e nada mais.
Se ame e não se sujeite.
Beijos e arrasem!


Autoconfiança, a gente não vê por aí…

Fiz uma aula, dia des­ses, com­ple­ta­mente diferente.

Além da minha Sauer Danças de todos os dias, tenho fre­quen­tado tam­bém a minha vizi­nha Petite Danse, na Tijuca.
E des­co­berto coi­sas incríveis.

A força da ener­gia da dança imanta o pré­dio da escola e pene­tra as salas e os movi­men­tos. Não sei se todo mundo per­cebe, mas vale a pena o exer­cí­cio de sen­tir isso o que chamo de psi­cos­fera da escola.

É como se tudo o que você ten­tar, ali, estará favo­re­cido por essa vibra­ção. A alma da dança tam­bém habita, plena, o número 463 da rua Uruguai.

Imantada por essa sen­sa­ção, fui me apro­xi­mando da sala onde ten­ta­ria fazer a aula da Maria Vakhrusheva, uma pro­fes­sora russa que fala bem o por­tu­guês e tem uma espé­cie de doçura que não cos­tu­ma­mos asso­ciar ao valente povo de lá.

Entro numa sala repleta de jovens. Muitos com cerca de 18 anos, uma ou outra com cerca de 30, mas com 53 anos, com cer­teza, ape­nas eu e o meu sonho de me tor­nar bai­la­rina, mesmo tendo come­çado aos 50.

Olho para a imen­si­dão da sala e penso: nada a pro­var, por­tanto, nada a temer. Procuro a pro­fes­sora, me apre­sento, explico que o meu nível está aquém do nível da turma, mas que gos­ta­ria de ten­tar, mesmo assim. Ela me diz: faz o que você puder.

Mas o aval da exí­mia ex-bailarina do bal­let de Kirov não era só do que eu pre­ci­sava para con­se­guir fazer a aula. Eu pre­ci­sava era de mim. Precisava de cora­gem para enfren­tar a expe­ri­ên­cia. Assim foi e foi assim.

Me aqueço de olhos fecha­dos, no chão, vou fazendo con­tato com o meu corpo e com a minha alma. Vou lem­brando da minha essên­cia e do quanto a vida pode ser curta, ainda mais se des­per­di­çada. Levanto deter­mi­nada e pro­curo um lugar na barra.

Quase não ouvia a pro­fes­sora. Eu estava meio longe. Quase não enxer­gava. Estava sem óculos. Troquei de barra umas três vezes, depois de come­çado o exer­cí­cio, ten­tando me achar. Terminei con­se­guindo ficar entre uma menina e um menino.

Aliás, fazer aula com mui­tos rapa­zes é exce­lente. Quanto vigor! E gen­ti­leza, viu?! Gosto muito dos movi­men­tos mas­cu­li­nos no bal­let. Quero ter a expe­ri­ên­cia de fazer uma aula estri­ta­mente mas­cu­lina, se hou­ver alguma no Rio. Acho que para eles tam­bém é tão difí­cil estar ali, que uma vez lá, dão o melhor de si. Talvez tenha­mos tam­bém essa afi­ni­dade, a supe­ra­ção de mui­tos preconceitos.

Coragem, não saia de casa sem ela!

Eu me sinto como a con­di­ção de quem se acha fora de con­di­ção. Quando a pes­soa, que está ali no canto, se sen­tindo meio fora do peso ou fora da téc­nica me vê entrar numa dia­go­nal com tanta von­tade, ela ter­mina se per­mi­tindo tam­bém. E vai. E se arrisca. Vi isso algu­mas vezes e fiquei feliz. Sou a con­di­ção dos sem-condição, me sinto na obri­ga­ção de mos­trar, não como se faz, mas como se tenta.

E, que­ri­dos, digo aqui, con­fi­ança é algo que a gente cul­tiva no ser. Não existe aula que dê conta disso. Você pode até estar tec­ni­ca­mente bem, mas nunca vai achar que pode, se não se permitir.

E a vida vai pas­sando. E a fila da dia­go­nal vai andando. E você não apro­vei­tou a chance de errar para apren­der. Coragem é um tipo de humil­dade. E de fra­ter­ni­dade tam­bém. Que a alma da dança nos per­meie, enquanto bus­ca­mos meios de nos permitir.

Beijo.


Paixão e frustração no balé

Sim, siga­mos.

Como o balé está asso­ci­ado à per­fei­ção de movi­men­tos com­ple­xos, é muito fácil se frus­trar nessa ati­vi­dade. Tenha a pes­soa a idade que tiver.

E exis­tem, sim, limi­ta­ções que o corpo vai impondo no decor­rer do tempo. As arti­cu­la­ções vão ficando mais pre­sas, os mús­cu­los mais frou­xos, o exato oposto do que pre­ci­sa­mos como bai­la­ri­nos, aliás.

Nesse cená­rio, o adulto tende a se frus­trar mais, claro.

E frus­tra­ção pode cau­sar ansi­e­dade: será que essa limi­ta­ção é definitiva?

E frus­tra­ção pode cau­sar desâ­nimo: será que vale a pena tanto sacrifício?

Como desis­tir do balé seria desis­tir de mim, acho que criei meca­nis­mos de sobre­vi­vên­cia à frus­tra­ção, para olhar com espe­rança para o movimento.

Colegas que come­ça­ram muito cedo, hoje, na fase adulta, vivem dizendo: ah, não con­sigo mais fazer isso, não con­sigo mais fazer aquilo.

chris

Como come­cei agora, e ainda não tes­tei todos os meus limi­tes, sem­pre penso: AINDA não con­sigo fazer isso, AINDA não con­sigo fazer aquilo.

E tenho uma fé danada no poten­cial do corpo. E tenho uma fé danada no poten­cial que a vida tem de nos surpreender.

Se não ten­tar­mos de ver­dade, como sabe­re­mos onde pode­ría­mos ter che­gado se não com­prás­se­mos o dis­curso da limi­ta­ção? Como sabe­re­mos que a limi­ta­ção AINDA não era irreversível?

Jean Marie, meu mes­tre de balé na Sauer, cos­tuma dizer que a difi­cul­dade está muito mais na mente do que no corpo.

E con­cordo cada vez mais com isso.

Converso muito com as minhas célu­las. E sei que elas me enten­dem. Converso muito com o uni­verso, que parece enten­der minha pai­xão também.

Se a tra­je­tó­ria em busca de um sonho é antes de mais nada uma tra­je­tó­ria em busca de si mesmo, que a pai­xão nos per­mita esse mer­gu­lho no auto­co­nhe­ci­mento, por­que o “sonho” é um cha­mado que se jus­ti­fica em si mesmo, é o que o uni­verso pode ter nos con­fe­rido como pro­pó­sito de existir.

Tudo o que não quero é vol­tar ao tempo em que tinha sau­dade de mim, sau­dade do que pode­ria ter sido. Não quero, nunca mais, olhar o tempo como inimigo.

Sim, siga­mos.


A bailarina que dança com a alma

Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat! Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat! Tombé, pas de bour­rée, glis­sade, pas de chat.

A voz da pro­fes­sora é enér­gica. As alu­nas evo­luem na dia­go­nal da sala, repe­tindo, com­pas­sa­da­mente, a sequên­cia de movi­men­tos. Repetem uma, duas, três, vinte vezes. O can­saço é visí­vel, mas elas não param. Só mesmo quando a música chega ao fim e a pro­fes­sora troca de passo. Baterias e gran­des sal­tos reve­lam que está quase no final. A reve­rence sina­liza que a aula aca­bou. Pelo menos aquela, acabou.

A turma parece exausta. O suor escorre pelo corpo, marca o chão de tábuas cor­ri­das, deixa no ar uma atmos­fera tensa, de tra­ba­lho duro e sofrido. Pés esfo­la­dos, cale­ja­dos, incha­dos, mús­cu­los dolo­ri­dos, abso­lu­ta­mente esgo­ta­dos por fou­ettès e bat­te­ments inter­mi­ná­veis. Ao con­trá­rio do que se possa ima­gi­nar, entre­tanto, tudo isso sig­ni­fica feli­ci­dade, bem-estar, rea­li­za­ção. A cena — que pode até pare­cer estra­nha para alguns — na ver­dade é mais uma etapa na exaus­tiva rotina de bai­la­ri­nas e bailarinos.

Uma das alu­nas, a mineira Clara Spinelli Bittencourt, 25 anos (em nada mesmo parece dife­rente das outras), mas – acre­di­tem – é defi­ci­ente audi­tiva. Apesar disso, dança e dança lin­da­mente. “Minha mãe era pro­fes­sora de bal­let e tinha uma aca­de­mia na pequena cidade onde morá­va­mos em Além Paraíba. Cresci nesse meio. Assim – aos qua­tro anos — o bal­let che­gou até mim, atra­vés de minha mãe. Já dan­çava den­tro da bar­riga dela, acredito!”

Aliás, esta é a vida de Clarinha que adora dan­çar em qual­quer tempo ou lugar. “Comecei a fazer aulas cedo e não parei mais. Sinto a música atra­vés da vibra­ção do som, fun­ci­ona mais ou menos como se fosse tele­pa­tia. A con­ta­gem e o ritmo come­çam ao mesmo tempo, sem­pre, claro, com a ajuda dos pro­fes­so­res. Desta forma a ener­gia da música entra no meu corpo pelos pés, pelos bra­ços e pela mente. Fiz tra­ta­mento com uma fono­au­dió­loga para apren­der a lin­gua­gem oral falada. Em fun­ção disso não tenho pro­ble­mas nessa área. Quanto a ouvir as res­tri­ções são mai­o­res já que minha audi­ção é resi­dual. Infelizmente não uso nenhum tipo de apa­re­lho. São todos muito caros e não temos – minha famí­lia e eu – renda sufi­ci­ente para comprá-los.”

clara

Guardar a sequên­cia dos pas­sos durante as aulas é bem mais fácil para ela. “A grande difi­cul­dade é quando – sem que­rer – a pro­fes­sora fica de cos­tas, e não dá para acom­pa­nhar a lin­gua­gem labial. Assim me perco mesmo e fico sem saber real­mente qual é o passo que vem a seguir. Quando danço, sinto uma feli­ci­dade e um orgu­lho tão grande que me vem a cer­teza de que nada é impos­sí­vel. Basta que­rer. Os obs­tá­cu­los me fazem ten­tar melho­rar mais ainda. Meu cora­ção fica tomado por sen­ti­men­tos de paz, liber­dade e bem estar.”
Ela pode até não ouvir a música, mas con­fessa que a musi­ca­li­dade vem de den­tro para fora do seu corpo. “Preciso da vibra­ção para sen­tir os sons e isso só acon­tece quando a música está bem alta. Já quando salto, perco este con­tato. Aí pre­ciso me guiar pelo ritmo e pela con­ta­gem dos compassos.”

Clarinha gos­ta­ria muito de ser bai­la­rina pro­fis­si­o­nal, mas diante de tan­tos pro­ble­mas e da falta de incen­tivo do governo– que se recusa a inves­tir em cul­tura — sabe que não pode ir longe demais. Recebe muita ajuda dos ami­gos, reco­nhece a gene­ro­si­dade infi­nita de algu­mas pes­soas, mas admite que para “ado­tar” o bal­let como pro­fis­são pre­ci­sa­ria de muito mais.

Aluna apli­cada do Centro de Artes Madeleine Rosay e de Sahyli Presmanes, faz ques­tão tam­bém de agra­de­cer a pro­fes­sora Claudia Freitas, da Sala Lennie Dale, que acom­pa­nha seus pas­sos desde pequena. “Clara é extre­ma­mente comu­ni­ca­tiva e a lin­gua­gem da dança tornou-se a sua pró­pria forma de se comu­ni­car. Ela é capaz de tra­du­zir e colo­car a alma nos movi­men­tos que excuta com a mesma sen­si­bi­li­dade de quem escuta ou até ainda melhor”, acres­centa Claudia.

Com a força das pro­fes­so­ras, ambas gran­des incen­ti­va­do­ras de sua car­reira, acre­dita no sonho de um dia — ape­sar dos obs­tá­cu­los – vir a ser uma grande bai­la­rina. “Sou exi­gente comigo. Estou sem­pre me esfor­çando para dar o melhor de mim em tudo que faço. Além disso, é extre­ma­mente pra­ze­roso tra­ba­lhar com o corpo, trans­mi­tindo sen­ti­men­tos e emo­ci­o­nando as pessoas.”

A menina que “ama a vida” tam­bém sonha com um curso de pós-graduação em Arquitetura e, claro, com outro de bal­let, os dois fora do Brasil. E deixa um recado muito espe­cial e extre­ma­mente deli­cado (assim como ela) a todos que aca­len­tam o mesmo ideal. “Não tenha medo. Nunca é tarde para come­çar. Importante mesmo é fazer aquilo que nos dá pra­zer sem­pre com muita dedi­ca­ção. Os sonhos não podem dei­xar de fazer parte da nossa vida. Mas é pre­ciso esforço para que eles virem rea­li­dade. Sonhos sem ati­tu­des ficam ape­nas no pen­sa­mento. É impor­tante que se trans­for­mem em ações.”

Agora, emocione-se tam­bém (e muito) com as pala­vras “encan­ta­das” de Clara Spinelli Bittencourt espe­ci­al­mente dedi­ca­das a Cristina Martinelli, uma de nos­sas mai­o­res artistas.

Lembro tão bem .… eu não tinha refe­rên­cia pro­fis­si­o­nal até conhecê-la. Minha admi­ra­ção por ela é enorme, seja pela supe­ra­ção, pela moti­va­ção, não importa. Bendito o dia em que resolvi colocá-la na minha vida. Aprendi tanto, mas tanto!

Cristina che­gou como uma mani­fes­ta­ção artís­tica, expres­sando sím­bo­los. Como sou defi­ci­ente audi­tiva e ela estava bem do meu lado sem­pre mer­gu­lhada em um belís­simo tra­ba­lho cor­po­ral, a expres­si­vi­dade de seus movi­men­tos, me aju­dou a senti-la, mesmo sem escu­tar a música. E assim – colo­cando para fora o lado mais pro­fundo de suas emo­ções e de seu talento – me fez per­ce­ber que ali come­çava o ver­da­deiro ritmo do coração.

Devo demais a ela. E é com pro­funda gra­ti­dão que agra­deço as lágri­mas, os risos e mui­tas outras sen­sa­ções que hoje fazem parte de mim. Por suas mãos fui con­du­zida ao que exis­tia de mais sen­sí­vel neste mundo de magia que é a dança de estar viva. Ajudou-me tam­bém a fazer da sobre­vi­vên­cia um cami­nho para con­vi­ver com minha alma de artista. Fico ima­gi­nando o quanto Cristina Martinelli lutou para ven­cer obs­tá­cu­los, o quanto ser­viu e ainda serve de exem­plo de fibra e deter­mi­na­ção. Minha que­rida te desejo muito, muito sucesso. Obrigada por tudo. Você será sem­pre a minha maior inspiração.”


En dehors ou en dedans?

Comecei a ir para o bal­let com 4 anos.

Quando você é muito pequena mui­tas coi­sas pas­sam des­per­ce­bi­das, inclu­sive as dife­ren­ças entre você e as outras crianças.

Sempre gos­tei muito de ir pro bal­let e tam­bém não tinha difi­cul­da­des mai­o­res apa­ren­tes. Acompanhava e até dan­çava com meni­nas mais velhas do que eu, sem­pre deco­rei as core­o­gra­fias muito fácil. Como eu não sabia o que era ‘ser en dehors ou en dedans’, não havia problema.

Passei na audi­ção da infe­liz­mente extinta E.M.B em São Paulo, con­cluí o pri­meiro ano tran­qui­la­mente. Quando pas­sei para o segundo ano, lem­bro como se fosse hoje, um belo, ou não tão belo dia, que a minha pro­fes­sora pediu para eu ficar no final da aula. Todas as meni­nas foram embora e eu fiquei. Ela pediu para que eu fizesse pri­meira posi­ção. Fiz. Ela pediu para eu fazer o máximo do en dehors que eu con­se­guisse… Ela não sabia que aquela ‘triste’ pri­meira posi­ção já era meu máximo! Foi nesse momento que des­co­bri­mos: ‘eu era en dedans ao extremo’!

Agora eu dou risada de tudo isso, mas para uma bai­la­rina ini­ci­ante é de chorar! Ser en dedans tor­nou tudo mais difí­cil pra mim no bal­let. Como se não bas­tasse a difi­cul­dade natu­ral das coi­sas, eu tinha mais essa para contornar.

Se você tam­bém sofre sendo en dedans, exis­tem mui­tos exer­cí­cios para melho­rar. Pode não ficar assim 100%, mas vai melho­rar e muito se você tra­ba­lhar para isso. Fale com sua pro­fes­sora para se apri­mo­rar cada vez mais e, inde­pen­dente de qual­quer coisa, con­ti­nue dançando!


O brilho nos olhos

Algumas pes­soas gos­tam de bal­let, outras amam, outras nas­cem para ele…

É bem difí­cil dife­ren­ciar uma bai­la­rina da outra. De qual grupo cada uma é? Gosta, ama ou nas­ceu? O que faz a gente per­ce­ber a ver­dade no talento é o bri­lho dos olhos. Bailarina tem alma de bai­la­rina! Isso nin­guém imita, não há treino que crie. Vem com você.

Tenho uma aluna, o nome dela é Márcia, tem 9 anos. Dá gosto dar aula para ela. Esse bri­lho dos olhos o qual eu estou falando são dos olhos dela… Não sei se virá a ser uma bai­la­rina quando cres­cer, mas ela mos­tra em cada gesto o quanto ama as aulas. A cada passo que aprende me olha como se agra­de­cesse, como se ganhasse o dia!
E se for um passo sal­ti­tante então… Ela sorri com os olhos de uma forma que faz a gente vol­tar para dar aulas de novo. Uma von­tade explí­cita de fazer e con­se­guir.
E tem con­se­guido, cres­cido com isso, acom­pa­nhado meni­nas mai­o­res. É muito gra­ti­fi­cante ver o amor pelo que ela está fazendo no olhi­nho dela…

Eu tinha uma amiga quando eu estu­dava que era assim… Bailarina de alma e de sor­riso. Não era das mais per­fei­tas, mas com cer­teza era a mais apai­xo­nada. Isso fez toda a dife­rença para ela, como espero que faça para a Marcinha e eu possa encon­trar isso em outras pes­soas pela frente, por­que esse bri­lho ilu­mina os cami­nhos de quem está por perto e dá ener­gia para con­ti­nu­ar­mos a ‘bai­la­ri­nar’ e ensi­nar o bal­let por aí.


Mamãe, eu quero ser bailarino!

– Eu que­ria con­ver­sar com você. Pode ser agora?

– Agora??????????? Não está vendo esta mon­ta­nha de papel? São con­tas. CONTAS. E cadê grana pra pagar tudo isso? Esse mês não vai dar!

– Tô falando sério, mãe. A gente pre­cisa con­ver­sar. E tem que ser agora.

– Quando são os seus assun­tos… é urgên­cia na certa! Não dá prá adiar, não é? E o que eu faço com as con­tas? O quê? Adio também?

– Mãe, me escuta, por favor.

(Pausa Dramática)

– Eu quero ser bailarino!

– (Acho que não ouvi direito) O que menino?????

– Quero ser bailarino!

– Como assim, bailarino?

– Bailarino, mãe!  Dançar…

(Mãe tam­bém tem audi­ção seletiva)

– Ah, dan­çar! Dança de salão, já sei. Aparece sem­pre na Dança dos famosos

– Não, mamãe, nada a ver. Eu quero ser BAI-LA-RI-NO!!!!!!!!!! Entendeu, agora????

– Bailarino???????

É, bai­la­rino. Que dança ballet!

– Ballet??????? Não pode ser! Dança moderna. Contemporânea.… tá na moda! Não tem até aquele grupo que escala paredes?

– Nãaaaaaaao, mãe eu quero ser bai­la­rino. Como o Biily Elliot do cinema.

– E você acha mesmo que eu sei quem é esse tal de Billy não sei das quan­tas? Seu amigo, por acaso?

–Billy Elliot, do cinema.

– E desde quando você tem amigo artista, menino! É demais pra mim, além de que­rer dan­çar, ainda tem amigo artista. Ninguém merece!

– Mãe, Billy Elliot é o nome de um filme. Sobre um rapaz que que­ria fazer bal­let como eu.

– Ballet?????? Você quer fazer ballet????

– É mãe, bal­let. Tô ten­tando te dizer isso há dez minu­tos. Mas você não ouve. Não quer ouvir. Quero fazer ball­let clás­sico! De sapa­ti­lha e malha!

– Sapatilha???????? Você vai usar SAPATILHA??????????

(As mães sem­pre pen­sam que toda sapa­ti­lha é de ponta)

– Você quer que eu dance como? De tênis?

– Não venha me dizer agora que você vai se fan­ta­siar de bailarino?

– Mãe, bai­la­rino não usa fan­ta­sia, usa figu­rino ou, — no máximo – uni­forme para fazer as aulas.

– E o que eu vou dizer para as minhas ami­gas? Para a família?

– A ver­dade, mãe. Simples!

_ Você enlou­que­ceu Carlos Henrique? Quem botou essa ideia na sua cabeça? Tanta coisa pra você esco­lher… lutas, vôlei, basquete!

– Mas quero ser bai­la­rino. Clássico. Dançar O lago dos cis­nes, Giselle, Dom Quixote! Ninguém me influ­en­ciou.… decidi sozinho

– Enlouqueceu mesmo. Ballet é só para meni­nas. Onde já se viu um homem deste tama­nho fazendo aulas de bal­let? Ridículo!!!!!!!

– Você já ouviu falar de Nureyev, Baryshnikov, Jorge Donn, Bejart, Marcelo Gomes? São bai­la­ri­nos. Os mai­o­res do mundo. O Marcelo, inclu­sive, pri­meiro bai­la­rino do American Ballet Theatre, é brasileiro.

– Nem pri­meiro, nem segundo. Você quer me matar de des­gosto? Um filho bai­la­rino era só o que fal­tava. O que os outros vão dizer?

– Não sei e nem estou inte­res­sado. Não devo satis­fa­ções a nin­guém! Quero fazer o que gosto, o que me dá pra­zer. O resto que se dane.

– O resto eu que aguente não é assim, Carlos Henrique? Sempre é! Bailarino clás­sico.… devo ter feito um jogo de pega vare­tas com las­cas da Cruz para ser cas­ti­gada deste jeito. Não conte comigo!!!!

– E nem quando eu for famoso você vai me assistir?

– Famoso? Você quer ser famoso? Além de dan­çar bal­let você quer que todo mundo saiba? Meu filho pense bem, tem tan­tas outras coi­sas para você esco­lher. Uma luta mar­cial, por exem­plo? Que tal! Tem mais a ver. E depois onde você vai apren­der bal­let menino?

– Numa aca­de­mia, mãe.

– Academia!!!!!!!!!!!!!!!! Aquelas salas lota­das de.…… moças e você lá rodo­pi­ando que nem.… ah, que des­graça!!!!!!!!!! Não pode ser ver­dade! Cadê meu Rivotril? Melhor a morte; só a morte vai me livrar de toda essa tris­teza, de tanta decepção.

– Mas eu pro­meto a você ser o melhor bai­la­rino do mundo! Prometo.

– Pode pro­me­ter o que qui­ser! Não adi­anta. Nem famoso, nem anô­nimo… não quero nem saber. NÃO QUERO TER UM FILHO BAILARINO, ENTENDEU????Tudo bem, vai dan­çar, tá ótimo!!!!!!! E vai viver como? De dança???? De bal­let??? Além de bai­la­rino, POBRE???? Isso é um pesadelo!

– Mãe.….

– E o senhor fique sabendo que daqui não sai naa­a­a­a­ada, abso­lu­ta­mente naa­a­a­a­ada para pagar essas aulas, ouviu bem?

– Já espe­rava por isso.. vou pagar com minha mesada.

– Ah, é??????? Então nem pense em me pedir mais dinheiro quando não tiver mais um centavo.

– Não vou pedir.….. mas, mãe, fala sério, isso é pre­con­ceito, puro pre­con­ceito. Estamos em 2014, não na Idade Media. Vai me des­cul­par mas todo pre­con­ceito é burro!

– Agora tam­bém está me cha­mando de burra, é isso mesmo?

– Não, mãe, não estou dizendo que você é burra.…. que­ria só enten­der as razões para tanta raiva de rapa­zes que dan­çam ballet?

– Não é raiva, Carlos Henrique, não tenho raiva de nin­guém. Só que não quero ter um filho bai­la­rino. Presta bem aten­ção, rapa­zes que dan­çam são todos meio “esqui­si­tos”. Você há de con­cor­dar comigo… não é possível!!

– Esquisitos??? Como??? Gays??? Não, mãe, são artis­tas, pes­soas sen­sí­veis que esco­lhe­ram a dança por­que gos­tam, por­que se rea­li­zam atra­vés dela. Da mesma forma que o nosso vizi­nho esco­lheu, medi­cina. É que esta droga de pre­con­ceito vem de tanto, mas de tanto tempo, que gru­dou na cabeça das pes­soas, para não sair nunca mais. Parece um vírus que se vai se espa­lhando e cor­rom­pendo o bom senso dos outros!

.….….…

Se você ainda não ouviu este diá­logo ou par­ti­ci­pou dele, com cer­teza conhece ou sabe de alguém que pro­ta­go­ni­zou – ainda que indi­re­ta­mente –essa cena. Até por­que o pre­con­ceito existe e não tem nada que possa disfarçá-lo. Do pre­con­ceito vem o sofri­mento, a cru­el­dade, os comen­tá­rios feri­nos, o bul­ling. Pessoas pre­con­cei­tu­o­sas são amar­gas, infe­li­zes, limi­ta­das. Em con­tra­par­tida sem­pre encon­tra­mos tam­bém (VIVA!!!!!) quem com­pre­enda, aceite e torça para que as aca­de­mias – assim como em várias par­tes do mundo – fiquem reple­tas de meni­nos nas tur­mas ini­ci­an­tes, inter­me­diá­rias, pre­pa­ra­tó­rias, adi­an­ta­das e que todos eles pos­sam ter car­rei­ras muito bem suce­di­das. O bal­let é uma pro­fis­são como todas as outras e não tem abso­lu­ta­mente nada a ver com opção sexual vista pela soci­e­dade como “poli­ti­ca­mente incorreta”.

Danilo Camassuti tem 24 anos, dança desde os 19, e sem­pre rece­beu o apoio dos pais. “Sou o artista da famí­lia. Todos me tra­tam com muito res­peito. São os pri­mei­ros a que­rer saber sobre minha car­reira. Infelizmente o Brasil ainda é um país pre­con­cei­tu­oso, repleto de pes­soas com cora­ção gelado e vazio. Graças a Deus recebi e recebo do apoio da minha famí­lia e dos ami­gos que me enchem de cari­nho ate hoje.”

A dança me pegou desde cedo”, con­ti­nua. “Por trás do vidro eu via sal­tos, giros, pés esti­ca­dos. Um novo uni­verso se abriu quando tomei cora­gem e abri aquela porta. Entrei sem sapa­ti­lha, des­calço, bra­ços tor­tos, olhar assus­tado. Ali, entre­tanto, era o meu lugar. Quando a dança entra na sua vida ela passa a ser a sua res­pi­ra­ção. Você pre­cisa dela para voar, é como ele­tri­ci­dade. Sem ela você não acende.”

Carismático e muito talen­toso, Danilo e sua his­tó­ria estão bem mais pró­xi­mos do final feliz de Billy Elliot, do que do drama fami­liar vivido por Carlos Henrique. Que pos­sa­mos ter mais finais feli­zes como o dele e sem­pre menos pre­con­cei­tu­o­sos do que todos os outros.

Portanto, se seu filho qui­ser mesmo ser bai­la­rino, se esta for real­mente a voca­ção dele, se ele tiver talento e força para enfren­tar a “bata­lha” de lon­gas horas de estudo e ensaios que o futuro lhe reserva, e se – acima de tudo – nada for mais impor­tante do que dan­çar para deixá-lo feliz, ajude, incen­tive, deixe que o des­tino se cumpra.

A arte – sen­si­bi­li­zada – agradece.


Troquei o analista pela sapatilha de ponta

Bailarinas são muito magras, muito jovens e pre­ci­sam come­çar muito cedo.

Na con­tra­mão (como sem­pre) de todos esses dog­mas que ouvi durante a vida inteira, lá estava eu, com 37 anos, acho, pronta (coque, rede, sapa­ti­lha, col­lant) para a minha pri­meira aula de bal­let clás­sico numa turma de adul­tos ini­ci­an­tes. Não era nada jovem, muito magra nem reen­car­nando mil vezes e estava come­çando bem depois do tempo regu­la­men­tar. A meu favor ape­nas a von­tade de acer­tar e a pai­xão pela dança. Não tive um desem­pe­nho bri­lhante como espe­rava, mas tam­bém pas­sei longe do desas­tre total, o que já foi mais que sufi­ci­ente. Aos pou­cos, entre­tanto, todos os fan­tas­mas fica­ram para trás. Fui acer­tando o passo. Literalmente.

Três meses depois dessa “estreia” tive­mos uma prova. É, prova, com banca exa­mi­na­dora e tudo. (na Academia Johnny Franklin tudo era levado muito a sério. E uma das pri­mei­ras e mais impor­tan­tes regras que aprendi no bal­let foi que dis­ci­plina é tudo. Isso, claro, incluía uni­forme em per­feita con­di­ções, cabelo preso, tudo impe­cá­vel sem­pre). Voltando! Durante a prova, já no cen­tro, letra C, não deu outra: fiquei Tetê-à-tête com os pro­fes­so­res que for­ma­vam a banca. Diante de tanta ten­são, desci e subi em um grand-plié sem cair, tre­mer ou pipo­car. Vitória!!!! Assim o tempo pas­sou, as difi­cul­da­des aumen­ta­ram e a pai­xão, mais ainda. Continuei por mui­tos anos, alguns “adul­tos” desis­ti­ram e a turma aca­bou se mes­clando com outra, de ado­les­cen­tes, uma delí­cia de con­vi­vên­cia quando não são nos­sos filhos.

Um dia, a pro­fes­sora final­mente anun­ciou o momento mais espe­rado de todos. Na semana seguinte come­ça­ría­mos a usar sapa­ti­lha de ponta. Uhuuuuu!!!!!!!! Afinal esse é ou não um dos gran­des sonhos de toda bai­la­rina? Se dói? Dói e dói muito. Dá para suar frio de dor e até pen­sar em desis­tir, enxu­gando – ao mesmo tempo — lágri­mas e suor. Esse lado do sonho não é nada gla­mu­roso. As unhas encra­vam, os calos inco­mo­dam, os pés pedem socorro a todo ins­tante. Mas tam­bém a todo ins­tante vem a agra­dá­vel sen­sa­ção de ter per­cor­rido – pelo menos – uma boa parte do caminho.

Na vida, entre­tanto, como nem sem­pre a música toca do jeito que a gente gosta, pre­ci­sei parar durante um bom tempo. Não deve­ria, mas não deu para ser dife­rente. Quebrei um jura­mento que fiz a meu médico que por nada, nada mesmo, lar­ga­ria o bal­let. “Você não tem ideia dos bene­fí­cios que a dança fez ao seu corpo ainda que a longo prazo.” Não era uma opi­nião qual­quer. Era o pro­fis­si­o­nal mega com­pe­tente e o amigo super que­rido dizendo a mesma coisa. Mas eu parei e me arre­pendo até hoje. Parei quando já con­se­guia fazer pas­sés e equi­lí­brios na ponta, enfim, ainda fal­tava muito para che­gar lá, mas já me sen­tia quase uma pri­meira bailarina.

Atualmente, em outra aca­de­mia, para onde fui res­ga­tada via face­book por minha pro­fes­sora (e amiga) lá do iní­cio da his­tó­ria, estou longe de fechar a quinta dos meus sonhos. Entendi que não dá pra lutar con­tra o tempo e me con­for­mei. Então capri­cho na expres­são, no alon­ga­mento, nos bra­ços, (adoro ports des bras, sou­ples­s­ses, cam­brés) me coloco o mais en dehors pos­sí­vel, pro­curo inves­tir no sen­ti­mento que chega até mim atra­vés da música e dos pas­sos, já que a téc­nica, bem, a téc­nica ainda tro­peça bas­tante. Mas se a piru­eta de quarta não acon­te­ceu, se as per­nas não saí­ram ao mesmo tempo no sis­sone ou se os bra­ços do pri­meiro ara­bes­que falha­ram, sem­pre resta a emo­ção de ter ten­tado. E a von­tade de ten­tar outra vez. Para acer­tar definitivamente.

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foto: repro­du­ção

Não sou apai­xo­nada ape­nas (!!!) pelas aulas. Espetáculos de dança (sem­pre a clás­sica em pri­meiro lugar) con­se­guem me hip­no­ti­zar. Gosto de tudo, de exa­mi­nar cada deta­lhe, cada expres­são, cada gesto. E de sonhar, sonhar, sonhar. Fico ima­gi­nando quan­tos anos de ensaio, quan­tas horas de aula e quanto sofri­mento aquela cri­a­tura que está em cena (leve, ágil, serena e sor­ri­dente em seus mui­tos fou­et­tés en tour­nant) pre­ci­sou enfren­tar. Talvez por isso sem­pre afirme que bai­la­ri­nos são seres de outro pla­neta. Que desa­fiam o tempo e o espaço, des­ven­dando da forma mais linda e deli­cada pos­sí­vel a mágica do movimento.

Costumo dizer que tro­quei o ana­lista pela sapa­ti­lha de ponta. Não estra­nhem. É que jamais con­se­gui­ria des­cre­ver com exa­ti­dão as sen­sa­ções que aulas de bal­let pro­vo­cam em mim. Quem faz, quem faz lutando con­tra ideias pré — esta­be­le­ci­das, quem “briga” por aquele pedaço da barra, quem vira o mundo ao con­trá­rio para não per­der um segundo de aula ou quem dri­bla os pró­prios limi­tes sabe do que estou falando. É como se eu rece­besse uma carga extra de ele­tri­ci­dade, acom­pa­nhada de uma sen­sa­ção de bem estar que o ana­lista tam­bém dá, claro, mas de outra maneira. No final ambos bus­cam ninar um pouco a alma da gente. E este acon­chego é cer­ta­mente a melhor de todas as recompensas.

Afinal, a vida per­de­ria a graça se não pudés­se­mos res­pon­der ao estra­nho cha­mado de “Prepara! 5, 6, 7, 8”.